dezembro 4, 2009

Cansada dos comedidos.
Que, sonsos, querem o muito enquanto dosam suas metades.
Com pena dos que se flagelam o tempo todo e se chicoteam com penas, que para quem ouve, soam como chicotes. Exageram na percepção do que não está certo, enquanto engatinham em poças de sol, de ar, de vida, de tanto do muito que eles não percebem, cegados pela ânsia do grande, do vistoso.
Eles amam ser amados. E acham que querem amor, mas querem apenas adoração.
Exausta dos que pensam demais e não sentem.
Ardendo de raiva dos que têm mania de grandeza inspirada em seu grande feito de ter participado da exposição de ciência do grupo escolar com dez e louvor.
Querendo a vida simples e este texto está totalmente influenciado pelo Rubem Alves, confesso.

novembro 23, 2009

Minha retina tem um espaço no canto, onde sim, fica a janela. Como é o nome daquele final do olho grudado no nariz, que ainda não é olho? É ali que vejo mundos novos, céus, aviões que deslizam, ansiedades exterminadas numa mesa de café da manhã na Tailândia. Onde ando olhando, quando me canso do resto? Nesta pequena réstia do olho inacabado, vai ver que é o fim do olho, vai ver é o começo. Vai ver.

Ele a esperava dormir, noite após noite. E quando ela era pedra, ele aspirava o odor do hálito dela, de sono e distância. E recolhia um longo fio de cabelo, sempre restava um, ao final da cabeleira entrelaçada nos sonhos irriquietos da mulher. Ao final de vinte anos ele havia recolhido um edredom de fios. Então ele se cobriu da coleção de cabelos entrelaçados, manta marrom ocre dedilhado de prata, numa seda tecida com mais macio entre os interstícios. E enfim conseguiu dormir.

ilustração A4 cópia

Lançamento do Armazém dos Afetos

Venha tomar um café comigo, no lançamento do livro de crônicas que saíram em A Gazeta: Armazém dos Afetos.

Dia 07 de novembro de 2009.
Das 9 às 11 hs da manhã.
Na Livraria Torre de Papel:
Rua Eugênio Netto 488, Ed. Praia Office, Loja 01,
Praia do Canto, Vitória – ES.
(Em frente à Igreja Santa Rita)
Tel: 27 3345-2344

Abraços e até lá.


Créditos da ilustração: David Caetano

Como um escaravelho dourado de antigo e novo.

Tenta se esconder ainda na areia.
À maneira daquele que disse: ao pensarmos no presente esse pensar já versa sobre o passado, sobre o que já foi. Esse pedaço perdido de tesouro do ontem em encostas, secretas de mar e rocio, e chuva e estio.

Foi tecido em volta dele toda a vegetação à beira-mar de agora, e como se presente ontem e por séculos anteriores.

Tudo nasceu desse vão tecido ao redor do escaravelho.

Pedaços de palavras concretas como maçã, escuro, pedra e faca.

Substituem pedaços de palavras que eram antes subjetivas, tristeza, saudade e amores.

Pela primeira vez em toda a sua vida ela comprou um vestido amarelo. Não havia nada demais nisso, mas o amarelo levantou seus cantos de olhos até então caídos.

Os olhares do sol que encontram os mares, ela percebeu ao caminhar na orla da cidade onde mora, estão tomados por este amarelo antigo. Que agora ela veste ao final do dia. E você? Já caminhou numa orla qualquer na hora do dia em que o sol está indeciso em ir embora ou ficar? Ou será apenas que ele tem de ir e se derrama, generoso, em todas as pessoas andantes como um abraço. E as pessoas caminham indiferentes a isso. Medindo pulsações.

Eu caminho para lembrar que sou bicho. Nós os portadores da tarefa de apenas escrever, pensar e tocar suavemente com as pontas dos dedos as teclas que contém letras temos de nos lembrar que somos animais, e carne, albumina e ossos. E não lembrar disso apenas quando dói. Ou quando somos tomados pelo desejo.

Ela nunca havia comprado nada na cor amarela. A cor amarela não combinava com a alma triste dela, anterior aos trinta anos.

Quando ela era jovem, gostava de ser triste e usar preto e fumar cigarros a qualquer hora e alardear que tinha depressão como um aviso.

Agora ela gosta de amarelo. E gosta de ter mais de trinta e de não fazer dietas, e assume que não tem comido tantas folhas assim, que tem se apaixonado com mais serenidade e tem pisado com pés de lã na vida das outras pessoas. Ao menos tem tentado. E muito. E tem conseguido.

E dia após dia, enquanto se torna mais velha, ela gosta mais de viver, até um dia em que, espera-se, ela fique cansada e parta. E gostaria de usar amarelo neste dia. E de que todos os amigos cantassem para ela. Alguma canção que os fizesse lembrar dela.

Ela admite que não gosta mais de quem reclama. De quem reclama muito.

Tem se afastado desses. E também não gosta tanto de quem não bebe nada e de quem tem medo do novo.

E também admite que se proíbe de ser raivosa e exige isso de quem ama.

E além disso, não quer mais nada que ela mesma já não tenha.

Por isso pode caminhar na cor amarela enfim. Por isso pode amar. Mudar de cidade por uns tempos. Lançar o novo livro. Sorrir mais. Não se preocupar tanto com o que falam dela. E nem mesmo não ligar para o fato de não ter tanto dinheiro quanto os anúncios de carros, casas e margarina parecem exigir dela.

Porque é muito feliz descobrir que hoje é um dia amarelo de sexta.

Que o amor é uma tinta que nunca acaba que tinge os dias de mais cor, como um verniz transparente, que torna tudo mais vívido.

E este amor é só dela. Não mais precisa exatamente de alguém para dar este amor.

Ou ainda, precisa de todos. De todos que vê e encontra como uma linda míriade de diferenças e sorrisos.

Viva o vestido amarelo.

A vida circular sonha e chora

fevereiro 11, 2009

Aqueles minutos no paraíso antes do sono intermediado por remédios.

O meu sono é contrabandeado pelas substâncias adoráveis, mas antes dele chegar, me arrasto até o computador. E escrevo e-mails para você, que com sua cara de porteiro e sua terrível ignorância nunca vai entender, nem retornar, talvez nem leia, sua mulher pode apagar antes. Uma coisa que seria bem a cara dela e dos cabelos pintados de loiro aguado, com a raiz aparecendo, secos e combinando com o batonzinho dorado da Natura.

Foda-se querida.

Um texto ácido depois da vida circular transar em dois meses, com mais de seis homens, sendo que um deles, você mesmo, cara de porteiro, mais que os outros.

O que você realmente queria? Que eu ficasse te esperando?

No ombro do maior deles a vida circular chorou, misantropa de si mesma, odiando cada fibra de desejo de seu corpo que não a atendia, não a socorria, se escondia e penava atrás do outro. Do homem com cara de porteiro.

Do pangaré. Seu pangaré.

Histéricas que gozam no sofrimento, meninas que sucumbem à promessas do destino fácil, renas que não existem a não ser em sonhos europeus. Tudo que é mentira parece melhor, azuis inexistentes em pirulitos e sorvetes de um pistache fake.

A cara maquiada. A meia suja virada ao avesso.

O meu amor finda quieto, mas os e-mails gritam ainda e o mais engraçado que pareço possuída, uma espécie de Chico Xavier às avessas (com todo o respeito a esse senhor) recebendo o espírito do porco que me acordou às cinco da manhã para se convidar a vir a minha casa.

Seis da manhã: ele fala que perdeu o papel e que está procurando.

Seis e meia: ele fala que não pode abandonar o amigo que o está acompanhando.

Sete: eu ainda tento domir cheia de clonazepan, leia-se Rivotril, e falo: dois homens aqui em casa nem pensar.

Sete e meia: ele liga novamente e diz que está sozinho, num motel.

Eu, num ataque idiota de curiosidade, pergunto por onde anda o amigo?

Foi buscar duas mulheres, amigas dele.

Na hora vizualizei as amigas. Tenho esse dom ocasional, que, como todos os outros, uso para o mal.

Não uso escrever para publicidade?

Então? O que uma pessoa que usa o dom de escrever para publicidade é capaz de fazer com outros dons mais nobres?

Vi as mulheres.

Entrei no orkut da mulher dele, da mulher oficial.

Adicionei a esposa do caradeporteiro,  que não parava de ligar e por quem eu estava obcecada, apaixonada, ou seja lá o que se pode chamar aquilo que eu sentia no meio das minhas pernas cada vez que pensava nele. Acorrentada?

Perguntei a ela: você sabe aonde anda seu marido, que você insiste em pensar que sempre some ao meu lado? Neste momento ele está num motel, chamado Star, com duas mulheres, um cara e este pó ruim de Vitória, que na verdade é puro remédio.

Ela quis ir.

Fui de táxi e usei a roupa que vesti no nosso primeiro encontro, aquele casual.

Entrei tão facilmente e ela escondida, a moça da portaria só falou meu nome e num quarto onde estavam quatro, mais duas não pareciam fazer diferença.

Eu entrei primeiro.

A cena dantesca. O cara de cara de porteiro deitado, com seu jeans caro, que tenta esconder um bom gosto que tem de ser comprado, que tem de custar caro, apenas para tentar acertar.

Me convidava para deitar ao lado dele. As garotas?

Tristes. Uma delas talvez tenha menos de 17. A outra parecia um travesti.

Sujas. Como são as coisas que ficam muito tempo nas ruas.

Olhei a tudo e especulei sobre a possibilidade de sair logo, mas ele me olhava com olhar doce. Depois de sumir por dez dias. Depois de não responder a meu e-mail. Depois de deixar bem claro, por tudo isso, que eu mais era um pano de prato sujo, na beira de alguma pia, que na falta de outros, enxuga copos. Depois de marcar diversas vezes, sumir e nem se explicar.

Telefonei e falei sorrindo para ele: tenho mais uma surpresinha para você.

A mulher dele estava ligando a câmera, atrás do carro, na garagem daquele quarto daquele estabelecimento duvidoso, sujo, onde os colchões são espumas cobertas de curvim.

A mulher dele ainda tem sentimentos nervosos, eu não. Fiquei estática vendo a linda cena. A que parecia travesti tentava arrancar cabelos dela. A menina de toalha falou “misericórdia” e saiu correndo por uma porta qualquer, que talvez seja aquela por onde vem a conta e o café nos motéis.

Eu calada.

Só falei o apelido terrível pelo qual ele é conhecido e pedi para que ele defendesse a mulher, a esposa, a mulher oficial. A cornuda, a chifruda, mas que ainda deve acordar ao lado dele todos os dias. Bem, quase todos os dias.

Depois eu disse algo a respeito dele ter mais cuidado ao se envolver com mulheres inteligentes. Claro que eu falava a meu respeito. Mas nem sei se acredito muito nisso. Uma mulher inteligente continuaria dormindo, diria não e se casaria com aquele americano doce que me convidou para conhecer o mundo há mais de dez anos.

Eu ainda tomei café da manhã com a esposa dele. No meu caso com dois cigarros. No dela com muita calma.

Que, convidada por mim,  deixou a cena do crime com muita coisas gravadas na sua cãmera rosa bebê cintilante.

Ela deve chantagêa-lo e ajudar a transformar ainda mais a vida dele num inferno.

A minha já está um. E quente.

A vida circular procria

fevereiro 4, 2009

Você me encostou na parede de azulejos azuis do banheiro.

O boxe estava todo embaçado como meus olhos mornos e pequenos, perto dos seus.

Você fez aquela coisa que não pode ser dita, veio por trás e como sua língua é morna e embaçava toda a minha circulação sanguínea.

Virei um único ponto e te bati na cara e recebi seus esforços em me bater de maneira indolor.

Com suas mãos tão grandes.

Mudamos de lado e de personagens. Ou, simplesmente, fomos nós mesmos.

Puta. Piranha.Vagabunda. Vaca. Putinha. Nada disso me assusta, se antes houver a palavra minha. Sua.

Tão mulherzinha que vi minha coleção de Susies no escuro daquele quarto de motel.

Ontem o tempo não existe. Onde o tempo não existiu. Um perfeito não-lugar.

Um perfeito não lugar com um deque terrível com protuberâncias na parede, como se fossem esculturas comprovatórias que não, não estamos aqui para ver arquitetura.

Matarte-ei.

Com estilingue no áspero da lingua.

Com mero descaso de mim.

Esperei. A construção de margaridas. De hortências.

Parei desembocada em seu nada.

E em sua covardia.

Não seria o primeiro nem o único que perdi para o metal que assombra e faz girar a roda putaria das vidas e dos bancos e encher as lojas de bugigangas.

Isso serve de consolo e de conforto. De arreio e de voo.

A espera traduzida na mais bela das faltas de expectativas.

Pôr do sol dentro de mim.

Noite em claro em cigarros de menta sem cervejas e sem alentos.

Minha saúde transbordando à volta de um que nunca vi.

A incredulidade de que esquecerei.

A vida circular também desiste de ser circular e de ser vista.

Irrompe desastrosamente na reta e ouve assustada o barulho do caminhão do lixo.

E pernoitamos na falta de tempo que refaz as imaginações, mais assombrosas ainda, se pensarmos como Lacan e adivinharmos que o real configura-se e insere-se no imaginário e, pior, vice e versa.

Escrevo poemas como quem gorjeia.

Como quem mareia.

A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância.

Vigiando os presentes da árvore de natal.

Esperando o próximo.

O outro.

O grito louco do doido de rua que me passou em frente e desejou casamento.

Os amigos todos são contra.

Os comentários se fazem ouvir.

Não adianta estancar um rio, amigo Daniel.

Nem a ilusão é cabível nas telas de cinema. Ela sai de lá percorre e atravessa a vida das pessoas em falta delas mesmas.

Sobrou essa morbidez dos braços que não prescrustam nada além de um possível olhar a esmo.

Sobrou este gosto na boca inteira inútil.

As pernas doidas traçam caminhadas num sol que me queima por fora, tentando alcançar o cimo e o dentro de mim.

Sobrou a palavra não dita.

Restou o jogo de palavras envoltas em músicas de caixinhas de bailarinas bêbadas e de batons vermelhos.

Tudo por vir.

Tudo já ido?

Se eu ao menos soubesse, divinatória de suas cartas escritas com tintas invisíveis. De seus poréns e de seu mau humor matinal,

próximo de meu bom humor café.

Exploramos as vísceras e delas tiramos os suspiros.

Contrafeitos aprendemos que nunca seremos.

Aprendemos?

Apenas diga a ele que menti que não queria.

Que exagerei quando sim.

Que chorei nas areias da praia da minha juventude, vendo a fábrica laranja insinuar seu ventre de minério e de infertilidade.

É longo o poema da ausência.

É tanto preenchimento para os buracos que as palavras não ditas permeiam.

Merece um porre a mais.

Merecemos mais, mesmo, outra coisa que pode ser tomada:

quente:

coragem.

Cor.

A vida circular de volta

janeiro 11, 2009

Os círculos sempre voltam. Eles são o princípio, o fim e o meio. São o óvulo e a Terra. São as redondilhas das pontas dos dedos. São a intensa solidão de encontrar a si mesmo. São os ovos, os nódulos circulares das suas mãos em minhas coxas. São as pontas de seus olhares, redondos e gulosos.

A vida circular quer muito arrumar as malas e partir. Para algum lugar onde a vida seja menos circular. A vida circular esquece de amores, e o próprio coração tem batidas regulares que fazem circular o sangue.

E o sangue se perde inútil, porque há de ser morno e calado.

Os dedos não podem telefonar. As mensagens não devem ser escritas. O sangue estanque e eu exangue.

A vida circular precisa de motivos para existir. Como todos os seres e até os objetos inventados. Escovas de dentes, caixas de fósforos, quadros na parede, bailarinas de caixinhas de música, átomos, maços de cigarro, pílulas de dormir.

Talvez somente a fé, a arte e a literatura prescindam de razões para existir. A vida circular não é tão forte assim. Olhem. Ela pede atenção.

Ela pede telefonemas e reza esperando. E esperar torna tudo ferruginoso. Torna engrenagens pardacentas. Do lado de dentro a espera é adoçada e comprimida com ansiolíticos. Clonazepam.

A crueldade pode se travestir em conselhos e em doçuras.

Mas enlouqueço com delicadezas, mesmo que sejam gritadas.

E eu que deveria chorar pela Faixa de Gaza. Choro por mim.

Tão egoísta e pequena que me assusto.

O que é incrível, porque um sintoma inédito nesta vida circular é o susto.