A vida circular tenta ser a vida amarela
Março 27, 2009
Pela primeira vez em toda a sua vida ela comprou um vestido amarelo. Não havia nada demais nisso, mas o amarelo levantou seus cantos de olhos até então caídos.
Os olhares do sol que encontram os mares, ela percebeu ao caminhar na orla da cidade onde mora, estão tomados por este amarelo antigo. Que agora ela veste ao final do dia. E você? Já caminhou numa orla qualquer na hora do dia em que o sol está indeciso em ir embora ou ficar? Ou será apenas que ele tem de ir e se derrama, generoso, em todas as pessoas andantes como um abraço. E as pessoas caminham indiferentes a isso. Medindo pulsações.
Eu caminho para lembrar que sou bicho. Nós os portadores da tarefa de apenas escrever, pensar e tocar suavemente com as pontas dos dedos as teclas que contém letras temos de nos lembrar que somos animais, e carne, albumina e ossos. E não lembrar disso apenas quando dói. Ou quando somos tomados pelo desejo.
Ela nunca havia comprado nada na cor amarela. A cor amarela não combinava com a alma triste dela, anterior aos trinta anos.
Quando ela era jovem, gostava de ser triste e usar preto e fumar cigarros a qualquer hora e alardear que tinha depressão como um aviso.
Agora ela gosta de amarelo. E gosta de ter mais de trinta e de não fazer dietas, e assume que não tem comido tantas folhas assim, que tem se apaixonado com mais serenidade e tem pisado com pés de lã na vida das outras pessoas. Ao menos tem tentado. E muito. E tem conseguido.
E dia após dia, enquanto se torna mais velha, ela gosta mais de viver, até um dia em que, espera-se, ela fique cansada e parta. E gostaria de usar amarelo neste dia. E de que todos os amigos cantassem para ela. Alguma canção que os fizesse lembrar dela.
Ela admite que não gosta mais de quem reclama. De quem reclama muito.
Tem se afastado desses. E também não gosta tanto de quem não bebe nada e de quem tem medo do novo.
E também admite que se proíbe de ser raivosa e exige isso de quem ama.
E além disso, não quer mais nada que ela mesma já não tenha.
Por isso pode caminhar na cor amarela enfim. Por isso pode amar. Mudar de cidade por uns tempos. Lançar o novo livro. Sorrir mais. Não se preocupar tanto com o que falam dela. E nem mesmo não ligar para o fato de não ter tanto dinheiro quanto os anúncios de carros, casas e margarina parecem exigir dela.
Porque é muito feliz descobrir que hoje é um dia amarelo de sexta.
Que o amor é uma tinta que nunca acaba que tinge os dias de mais cor, como um verniz transparente, que torna tudo mais vívido.
E este amor é só dela. Não mais precisa exatamente de alguém para dar este amor.
Ou ainda, precisa de todos. De todos que vê e encontra como uma linda míriade de diferenças e sorrisos.
Viva o vestido amarelo.
A vida circular tenta dobrar a esquina e sumir
Janeiro 22, 2009
Matarte-ei.
Com estilingue no áspero da lingua.
Com mero descaso de mim.
Esperei. A construção de margaridas. De hortências.
Parei desembocada em seu nada.
E em sua covardia.
Não seria o primeiro nem o único que perdi para o metal que assombra e faz girar a roda putaria das vidas e dos bancos e encher as lojas de bugigangas.
Isso serve de consolo e de conforto. De arreio e de voo.
A espera traduzida na mais bela das faltas de expectativas.
Pôr do sol dentro de mim.
Noite em claro em cigarros de menta sem cervejas e sem alentos.
Minha saúde transbordando à volta de um que nunca vi.
A incredulidade de que esquecerei.
A vida circular também desiste de ser circular e de ser vista.
Irrompe desastrosamente na reta e ouve assustada o barulho do caminhão do lixo.
E pernoitamos na falta de tempo que refaz as imaginações, mais assombrosas ainda, se pensarmos como Lacan e adivinharmos que o real configura-se e insere-se no imaginário e, pior, vice e versa.
Escrevo poemas como quem gorjeia.
Como quem mareia.
A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância.
Vigiando os presentes da árvore de natal.
Esperando o próximo.
O outro.
O grito louco do doido de rua que me passou em frente e desejou casamento.
Os amigos todos são contra.
Os comentários se fazem ouvir.
Não adianta estancar um rio, amigo Daniel.
Nem a ilusão é cabível nas telas de cinema. Ela sai de lá percorre e atravessa a vida das pessoas em falta delas mesmas.
Sobrou essa morbidez dos braços que não prescrustam nada além de um possível olhar a esmo.
Sobrou este gosto na boca inteira inútil.
As pernas doidas traçam caminhadas num sol que me queima por fora, tentando alcançar o cimo e o dentro de mim.
Sobrou a palavra não dita.
Restou o jogo de palavras envoltas em músicas de caixinhas de bailarinas bêbadas e de batons vermelhos.
Tudo por vir.
Tudo já ido?
Se eu ao menos soubesse, divinatória de suas cartas escritas com tintas invisíveis. De seus poréns e de seu mau humor matinal,
próximo de meu bom humor café.
Exploramos as vísceras e delas tiramos os suspiros.
Contrafeitos aprendemos que nunca seremos.
Aprendemos?
Apenas diga a ele que menti que não queria.
Que exagerei quando sim.
Que chorei nas areias da praia da minha juventude, vendo a fábrica laranja insinuar seu ventre de minério e de infertilidade.
É longo o poema da ausência.
É tanto preenchimento para os buracos que as palavras não ditas permeiam.
Merece um porre a mais.
Merecemos mais, mesmo, outra coisa que pode ser tomada:
quente:
coragem.
Cor.
A vida circular de volta
Janeiro 11, 2009
Os círculos sempre voltam. Eles são o princípio, o fim e o meio. São o óvulo e a Terra. São as redondilhas das pontas dos dedos. São a intensa solidão de encontrar a si mesmo. São os ovos, os nódulos circulares das suas mãos em minhas coxas. São as pontas de seus olhares, redondos e gulosos.
A vida circular quer muito arrumar as malas e partir. Para algum lugar onde a vida seja menos circular. A vida circular esquece de amores, e o próprio coração tem batidas regulares que fazem circular o sangue.
E o sangue se perde inútil, porque há de ser morno e calado.
Os dedos não podem telefonar. As mensagens não devem ser escritas. O sangue estanque e eu exangue.
A vida circular precisa de motivos para existir. Como todos os seres e até os objetos inventados. Escovas de dentes, caixas de fósforos, quadros na parede, bailarinas de caixinhas de música, átomos, maços de cigarro, pílulas de dormir.
Talvez somente a fé, a arte e a literatura prescindam de razões para existir. A vida circular não é tão forte assim. Olhem. Ela pede atenção.
Ela pede telefonemas e reza esperando. E esperar torna tudo ferruginoso. Torna engrenagens pardacentas. Do lado de dentro a espera é adoçada e comprimida com ansiolíticos. Clonazepam.
A crueldade pode se travestir em conselhos e em doçuras.
Mas enlouqueço com delicadezas, mesmo que sejam gritadas.
E eu que deveria chorar pela Faixa de Gaza. Choro por mim.
Tão egoísta e pequena que me assusto.
O que é incrível, porque um sintoma inédito nesta vida circular é o susto.
O nove pode ser novo
Dezembro 31, 2008
Ando confiante em grandes mudanças.
Desde o final de outubro.
Talvez porque ande confiante em mim.
E confiante nas pessoas e principalmente em gente.
Fiz novos amigos, fiz novos amores. Tratei acordos, desfiz outros e desconstruí e reformei e construí.
E passei a crer novamente com toda a força de minha vontade e com alguma dissimulada desconfiança, que insisto em ter, para não perder o passo firme em qualquer chão.
No dia 25 caminhei no calçadão e vi crianças inaptas com seus novos brinquedos: patins e outros objetos de correr. Skates e bicicletas.
E parecia uma metáfora de como nos sentimos num ano novo no qual a gente se esmera em acreditar que tudo vai ser diferente. Mesmo que seja do mesmo. É que recomeço é coisa que dá dentro da gente e que pode ser sutil e inefável. Como um piscar.
Afinal temos cílios nos olhos para afagar o que vemos.
Que este 2009 seja dentro dos conformes e além.
Que tenha paixão, sucesso, felicidades e um pouco de dor, para lembrarmos do humano a que todos estamos expostos, irremediavelmente e para o gozo ser ainda maior quando chegar.
Um 2009 humano para todos vocês. E com mais histórias para contar, e repleto de amigos para ouvir a narrativa.
Um 2009 que serve de gancho poético para o novo.
NoveNovo. Ave.
O amor acaba
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Paulo Mendes Campos |
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
( E esse último acabou tão, tão rápido, que vai ver nunca foi.)
Quando a vida circular esbarra numa reta
Dezembro 12, 2008
Ele estava ali desde o começo.
E essa portadora da vida circular não o tinha visto, ou tinha, mas havia julgado o rapaz pelas aparências.
E um dia da pior forma possível, às quatro da manhã, a vida circular dela encostou na reta ascendente da vida dele.
Bonito de um jeito brusco.
Alerta a tudo com ferocidade de alegria.
Intenso como uma absolut tomada quente.
As vidas, de duas pessoas opostas, se encontram por cerca de nove horas.
Durou nove horas.
Ela ouviu tudo. Ele contou talvez tudo. Havia o soro da verdade entre eles.
Mas esse encostar aleatório dessas vidas tão diferentes quanto todos os clichês da diferença ( a autora ainda está emocionada e vai voltar para burilar as metáforas) água e vinho, pedra e espuma, olho e boca, pau e côncavo, reta e círculo. Esse encostar a desconcertou.
Vou usar a primeira pessoa mesmo.
Encostar na sua vida grande e vasta me desconcertou. Desconcentrou.
E me fez ter vontade de ter mais. Ao mesmo tempo em que sei que é apenas um estreito, um desses tilintares raros de algum mosteiro que se fez ouvir, uma anomalia, uma chuva de sapos. Um acontecimento furtuito, estranho, que não estava previsto, que não poderia ter havido, foi o que não tinha de ter sido, erámos o que não conseguia ser visto.
Num lugar para não sermos olhados, numa tangente, numa intersecção improvável.
Sua boca caiu na minha.
Sua vida derramada na minha cara.
Meu rosto de lua e o seu de sol.
Sua pele de areia e a minha de nuvem.
Seu gosto de limpo e eu toda suja de vida.
Nossos poros abertos e entrando e entrando e entrando e entrando.
Indefinidamente.
E o maldito João Gilberto que tocou tão fora de hora quanto eu desafinava. Escondendo o choro de nunca mais te ver nos meus óculos. Que não ficaram nada bons em você.
Eu eu pudesse ter apenas mais um desejo. Iria gastá-lo com nós dois?
A Vida Circular e Inédita
Novembro 13, 2008
Viu o homem de terno branco e barba rala, cinzenta.
Ela tinha certeza que o conhecia. Relampejou ao redor do homem.
Ela entrou no carro dele e foi como a primeira vez. E ele falava a voz de um grave. Que ela imaginou que tinham aprisionado um trovão no peito dele, que ele delicadamente emitia pedaços de trovejar.
E ele tinha cílios longos, ao contrário da barba, e eram negros e retintos cílios, e ela viu os cílios como formas dele afagar o que olhava.
O homem tem cílios para afagar o que olha.
Os olhos úmidos pela chuva e pela constância em acreditar. Do caminho bifurcado a certeza da escolha da magia. A bruxaria nas palavras escritas em primeira pessoa inaudita.
Estou certa agora do mergulho, na loucura, naquela brecha de luz que inicia o encontro com o Aleph, nos primeiros delicados dedilhar de piano que antecede uma Gimenopédia de Satie, no anterior aos dentes cortarem com gozo a carne da maçã espumante e importada, no frio dos pés que anuncia o banho no mar do primeiro caldo da infância, no medo do toque da estante em escuro ao sentir o inseto que correu, no primeiro parágrafo de Harmada do Noll, na primeira lida em Clarice escondida das amigas na biblioteca da escola, na hermética sensação de enjoar que causou o primeiro cigarro, naquele vômito surpresa do porre ao onze anos tomando os copos que sobravam da festa dos adultos.
Eu sinto-me bem na minha pele. E sou toda pele agora. Decidi qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_ao descobrir todas essas coisas, três coisas caleidoscópios onde cabem, com folga, todas as outras coisas. Ao descobrir qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_vislumbrei a mim mesma. E o entorno ficou cinza puído e eu acabo de me tornar da cor daquele pó das asas das borboletas. E dizem que se esfregamos aquele pó no olhos, cegamos.
Eu cego.
A Vida Circular
Novembro 11, 2008
A vida circular se mete em ônibus. Vai ao terrível antro de compras perdulárias, chamado shopping center.
Num domingo.
E descobre, estarrecida, que é o dia errado da estréia do filme do Woody Allen. Esse mesmo que tem o ator favorito dessa vida circular.
A vida circular ouve então, um terrível estrondo em pleno shopping. E percebe que a água que havia contornado para encontrar-se com Javier Barden, água no chão, varrida por sorridentes senhoras_na verdade, era água da chuva que foi incontornável. A água arremeteu-se toda contra as reentrâncias das vidraças daquele templo de gastos inúteis. E havia água, e gente correndo, e gente que nem se importava se havia um bebê no colo daquela mulher. E havia pessoas passando por cima do canteiro com seus carros, e os estrondos continuavam, e debaixo das alças da Terceira Ponte, pessoas se aboletavam no escuro, pareciam morcegos gigantes, tentando chegar a lugar algum, enquanto outras quase nadavam, com calças jeans justas, que estão na moda, enroladas nas gorduras de suas pernas morenas. E mães ligando pedindo caronas a filhos que não poderiam chegar, porque seus carros estavam parados em outros cantos da cidade. A cidade sitiada pela água e pela falta de dreno. Soube-se depois que tudo foi culpa de comportas fechadas, de coisas enroscadas. E havia choro de crianças, e afinal, porque algumas crianças insistem em brincar de pique esconde até numa hora dessas? Havia tudo e mais um pouco, mas não havia táxis. A vida circular era assim mesmo, volta e meia tudo retorna à animalidade. A uma corrida desenfreada em prol de um sofá quente e uma copo de chá.
Foi nessa hora, em meio a essa chuva escandalosa, que ela o viu.
Para não contrariar clichês. Para parecer roteiro de filme água com açúcar. Para que sua roupa estivesse molhada bem no peitoral da camisa branca. Para que seu cabelo estivesse alisado pelas águas. Nessa hora, usando um carro como corcel, ele surgiu bem no meio de um raio. Ela teve essa impressão, ou foi o frio na barriga que a torturou e a fez ver luzes?
A Vida Circular_ III
Novembro 7, 2008
Recorro a clichês. E com absoluta leveza de alma e nenhuma preocupação com o que pode acontecer em relação a isso. Me chamarem de clichê? Acho agradável o som da palavra. E gosto da definição de Allain de Boton: ”The problem with cliches is not that they contain false ideas, but rather that they are superficial articulations of very good ones.” Por mais clichê que possa parecer citar Allain de Boton.
Esse trecho da Vida Circular, pensei em começá-lo contando que a cidade se oferece em placas, apelos, e barulhos de polis que se enfeita, se lustra, demole o velho e suave, o que é da altura que vemos sem erguer as cabeças, e em seu lugar, se prolonga até aonde o torcicolo alcança . “EM BREVE AQUI. O imóvel certo para você”. “Sua felicidade está a alguns passos daqui. Venha conhecer o apartamentos do seus sonhos”. “Seja vizinho da natureza”. “More no imóvel perfeito”. “Mude já”.
E a trilha sonora dessa enlouquecida corrida em busca do maior número de compradores é um techno batidão que faria inveja aos meninos do Chemical Brothers. Eu trabalho, até o início do mês que vem, numa casa que dá às costas_casa tem costas?_ para a construção do que vai ser a sede da Petrobrás. No Barro Vermelho. E passo por casas e por árvores, me perguntando até quando elas resistirão.
A respeito da estética dos cartazes das construtoras e dos seus tapumes e placas, eu prefiro não falar nada, porque sinto que serei agressiva.
A respeito da cidade não dar mostras de que vai melhorar com isso, e do meu termo, usado numa crônica, “cidade anabolizada” (por falar nisso, a gente usa aspas para citar a nós próprios?) eu não gostaria de repetir a mesma história.
O que me faz triste hoje é outro motivo, é que não sei se amo algo que está ainda se desconstruindo e se construindo. Então, não sei o que sinto.
O que me fez triste é o entrocamento no qual vivo agora. É essa ruela com bifurcação logo à frente. Não vou contar o que leio nas placas. Mas são muito diferentes. E não apontam para dentro de mim.
Terei de escolher.
Veremos.
Mando notícias.
A Vida Circular Continua
Novembro 4, 2008
Ontem. Não era assim que eu sabia o hoje.
De todas as coisas que não sabemos, as mais assustadoras são as que nem sabemos que não sabemos. As que nem ousamos percrustar. Esse mistério que é adivinhar que vida besta é essa que teremos com mais de trinta anos.
Então é isso, pagamos as contas e descobrimos que a peça de graça no teatro, com a atriz favorita, é vedada às autoridades, ou a quem nada faz. Que pode correr até o Centro da Cidade às 11 e ficar estático numa fila absorto em gritar quando os ingressos acabam. Descobrimos que nem pagando conseguimos ver a atriz favorita. E descobrimos que a vida é assim, cheia de coisas que não custam dinheiro, mas mais cheia ainda de coisas que custam.
E as árvores parecem saber disso.
E para todas as faltas de inspiração sempre existe o vinho.