Sheherazade pra quem?

E o texto da Raquel Sheherazade na Folha? Ela tem direito ao negrito e a fonte maior, que se assemelham a terrível entonação da voz dela, por si só quase violenta?

E o parágrafo inicial, com argumentação de que tudo se divide entre bem e mal, num maniqueísmo pífio, adorado por fundamentalistas que realmente subdividem o mundo em certo e errado, bom e mal, preto e branco…Deus e diabo. Alguém duvida que isso é estreito demais?

Logo depois ela insiste, como tantas vezes eu vi pessoas fazerem por aqui ou lá fora na vida real, em afirmar que a pobreza não é necessariamente culpada da marginalidade. Me fez lembrar Rosseana Sarney, dizendo que cabeças estavam sendo decapitadas no Maranhão pela riqueza ascendente em seu estado (seu de Rosseana, e ponha propriedade neste pronome possessivo…) voltando à vaca fria, com todo respeito, às vacas, como alguém pode ainda tentar dissociar pobreza de má distribuição de renda, de desigualdade, de parca educação, de falta de perspectivas e como ainda podem dissociar marginalidade de pobreza? Pior, violência de pobreza? Ela usa o artifício de quase acusar de preconceituoso quem ainda acredita em contexto social para entender a violência. Poderia ser esperto isso, se não fosse fundado em uma meritocracia rasa. Meritocracia é uma visão de que todos podem conseguir vencer na vida por seus próprios esforços, um grande meritocrata é o Pelé que adora afirmar que ele venceu, todos podem. E assim desmerece o movimento negro, diz que racismo não existe, mal sabe ele que se tivesse nascido 20 anos antes, não poderia pisar no gramado, ou pisaria pintando a cara de branco. Se tivesse nascido antes da abolição, ou pouco depois, sequer teria se sagrado jogador. Foi graças ao movimento abolicionista e à conquista de direitos que ele hoje pode ser chamado de “rei”. 

Logo depois Raquel tenta, como tem sempre tentado com certo êxito, admito, atrair o carinho dos anti-petistas. Ela poderia até conseguir açambarcar apenas a oposição, que está certa em muitos pontos, mas Raquel é um produto, e produtos têm nichos específicos, ao falar logo mal de remessas de dinheiro pra Cuba, ela se situa bem no extremo da direita, e o extremo da direta no canal de TV que exibia “A semana do presidente” fica bem colocado, na Folha de São Paulo também não destoa tanto, ultimamente a extrema direita tem grassado até na minha timeline, acabo de ver um sujeito postando uma chamada para uma marcha em defesa da família e propriedade e logo depois uma imagem que dizia assim: “entre 1968 e 1985 eu sabia que estava seguro”. E essa imagem tem muito mais a ver com Raquel do que minha total não-linearidade deixa transparecer. Um tempo em que conflitos se tornam violentos é o tempo mais propício a uma forma de violência autorizada, que salva só alguns, mas esses alguns com o poder do capital e do império e das armas justamente são os que mais
a querem: a violência da ditadura. É isso, Silvio, acertei ou peço ajuda aos universitários?

Todos os parágrafos finais são o mesmo lixo que tenho lido por aqui, de pessoas que fazem o elogio à polícia, defenestram adolescente infratores, mas essas pessoas ao menos falam, vez por outra, da educação, Raquel realmente parece ser o boneco de um ventríloquo que acredita que violência “nasce ou surge” (palavras do início do texto dela). Raquel: você faltou um monte de aulas para orar? Não adianta Raquel, pelo que pudemos saber de Cristo, apenas por um ou dois episódios da vida dele: morrer ao lado de um ladrão quando poderia ascender diretamente aos céus, ou livrar uma prostituta de um apedrejamento, acredito que ele morreria vergonha de você. 

 

Link do referido texto:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1410284-rachel-sheherazade-ordem-ou-barbarie.shtml

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