Sheherazade pra quem?

E o texto da Raquel Sheherazade na Folha? Ela tem direito ao negrito e a fonte maior, que se assemelham a terrível entonação da voz dela, por si só quase violenta?

E o parágrafo inicial, com argumentação de que tudo se divide entre bem e mal, num maniqueísmo pífio, adorado por fundamentalistas que realmente subdividem o mundo em certo e errado, bom e mal, preto e branco…Deus e diabo. Alguém duvida que isso é estreito demais?

Logo depois ela insiste, como tantas vezes eu vi pessoas fazerem por aqui ou lá fora na vida real, em afirmar que a pobreza não é necessariamente culpada da marginalidade. Me fez lembrar Rosseana Sarney, dizendo que cabeças estavam sendo decapitadas no Maranhão pela riqueza ascendente em seu estado (seu de Rosseana, e ponha propriedade neste pronome possessivo…) voltando à vaca fria, com todo respeito, às vacas, como alguém pode ainda tentar dissociar pobreza de má distribuição de renda, de desigualdade, de parca educação, de falta de perspectivas e como ainda podem dissociar marginalidade de pobreza? Pior, violência de pobreza? Ela usa o artifício de quase acusar de preconceituoso quem ainda acredita em contexto social para entender a violência. Poderia ser esperto isso, se não fosse fundado em uma meritocracia rasa. Meritocracia é uma visão de que todos podem conseguir vencer na vida por seus próprios esforços, um grande meritocrata é o Pelé que adora afirmar que ele venceu, todos podem. E assim desmerece o movimento negro, diz que racismo não existe, mal sabe ele que se tivesse nascido 20 anos antes, não poderia pisar no gramado, ou pisaria pintando a cara de branco. Se tivesse nascido antes da abolição, ou pouco depois, sequer teria se sagrado jogador. Foi graças ao movimento abolicionista e à conquista de direitos que ele hoje pode ser chamado de “rei”. 

Logo depois Raquel tenta, como tem sempre tentado com certo êxito, admito, atrair o carinho dos anti-petistas. Ela poderia até conseguir açambarcar apenas a oposição, que está certa em muitos pontos, mas Raquel é um produto, e produtos têm nichos específicos, ao falar logo mal de remessas de dinheiro pra Cuba, ela se situa bem no extremo da direita, e o extremo da direta no canal de TV que exibia “A semana do presidente” fica bem colocado, na Folha de São Paulo também não destoa tanto, ultimamente a extrema direita tem grassado até na minha timeline, acabo de ver um sujeito postando uma chamada para uma marcha em defesa da família e propriedade e logo depois uma imagem que dizia assim: “entre 1968 e 1985 eu sabia que estava seguro”. E essa imagem tem muito mais a ver com Raquel do que minha total não-linearidade deixa transparecer. Um tempo em que conflitos se tornam violentos é o tempo mais propício a uma forma de violência autorizada, que salva só alguns, mas esses alguns com o poder do capital e do império e das armas justamente são os que mais
a querem: a violência da ditadura. É isso, Silvio, acertei ou peço ajuda aos universitários?

Todos os parágrafos finais são o mesmo lixo que tenho lido por aqui, de pessoas que fazem o elogio à polícia, defenestram adolescente infratores, mas essas pessoas ao menos falam, vez por outra, da educação, Raquel realmente parece ser o boneco de um ventríloquo que acredita que violência “nasce ou surge” (palavras do início do texto dela). Raquel: você faltou um monte de aulas para orar? Não adianta Raquel, pelo que pudemos saber de Cristo, apenas por um ou dois episódios da vida dele: morrer ao lado de um ladrão quando poderia ascender diretamente aos céus, ou livrar uma prostituta de um apedrejamento, acredito que ele morreria vergonha de você. 

 

Link do referido texto:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1410284-rachel-sheherazade-ordem-ou-barbarie.shtml

Clarice, a moça burra da Veja, mulheres morrendo e eu com isso…

Não sei se isso de fato importa, mas vamos lá, acho que o Fantástico está fazendo no mínimo uma grande besteira, um anacronismo e um desrespeito em mostrar os textos de Clarice Lispector destinados às revistas femininas agora, em plenos 2013, e ainda assiná-los como se fossem de fato Clarice.
Clarice começou a escrever aquelas bobagens logo que separou-se de seu marido diplomata, Maury Gurgel. Corria o ano de 1959 e ela tinha dois filhos. E imagino que não dava pra manter o padrão de vida com venda de seus livros, então ela aceitou escrever para revistas femininas, sempre com pseudônimos.
Se observarmos a obra de Clarice, perceberemos que ela tem um lastro muito mais feminista do que machista, ao menos era sempre arguta a sua construção de personagens, como o cinismo implacável aplicado a burguesa personagem de A Paixão Segundo GH, que adentra o quarto da empregada e se confronta com seus preconceitos, seus medos, seus desejos mais secretos. Ou mesmo se tomarmos uma menina que está à espera de seu príncipe, Macabeia de A Hora da Estrela, vemos como a narradora a maltrata, zomba de sua inocência e a faz simplesmente ser atropelada por sua fantasia de homem rico que viria pra salvá-la. E a personagem que vê os mendigos de Copacabana e os deseja? Mais do que respeito, ela os admira em sua liberdade. Ela os deseja. Há ainda outros exemplos, mas eu teria que fazer uma dissertação para dar conta de tudo. 
O que me deixa atônita é ler que muitos confundem essa Helen Palmer com a Clarice. E apontam essa autoria como se fosse própria, não quero dizer que tudo que o que escritor escreve sob segunda autoria não é dele, mas é como se pegassem um trabalho publicitário de Antonio Torres e o assinassem com o nome dele, e louvassem como obra dele. Não é, nunca será, esse também magistral escritor apenas teve de ganhar seu pão, e sabemos que nem sempre a entradinha que a literatura nos paga dá pra forrar a barriga.
Ou ainda se achassem os trabalhos de Guimarães Rosa no seu mundo da diplomacia, ou tratados de bruxaria dele, e publicassem como se fosse obra literária. 
E sem falar dessa inoportuna glamourização do machismo, num país em que entre 2001 e 2011, a cada uma hora e meia uma mulher morreu de forma violenta. Foram 5.664 mortes por ano, 472 por mês, 15 por dia. E cerca de 40% de todos os assassinatos de mulheres foram cometidos por um parceiro íntimo*…ou seja: um número alarmante de crimes de gênero.
É..mudei de ideia, mais do que anacronismo fazer um quadro com textos de Helen Palmer é aviltante. E só gente como essa moça aqui pode achar isso gracioso, também, VEJA aonde ela escreve (http://veja.abril.com.br/blog/quanto-drama/folhetinescas/7-conselhos-preciosos-de-helen-palmer/#comment-38931)

*Fonte: http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/09/25/apos-lei-maria-da-penha-indice-de-assassinatos-de-mulheres-continua-alto/

Da série Poesia sem tratamento: feita no ato.

vou ficando transparente
sumo como limo
suco feito nuvem
plúmbea quanto chuva

vou esquecendo de mim
em gentes que nunca nem vi
em lugares que não pousei

antes doida que chata
antes desordem que calendário
antes mãe que medo

antes eu que você

antes que seja tarde e
viro adélia, adilia e homilia de missa parda

viro quente, penugem e leite
viro eternidade
e fico moça de novo no beijo do instante

antes que seja quieto
pra sempre

Posts copiados do Prosa Online

O Prosa Online é o blog do Miguel Conde e do Guilherme Freitas. Hoje traz uma compilação da matéria de capa do Prosa e Verso: caderno cultural do Globo. Arquivo aqui os posts para ler depois, porque achei muito interessantes e têm ligação direta com alguns questionamentos meus e de muitos artistas e intelectuais de Vitória, Espírito Santo.

Link do Prosa Online: aqui!

Matérias:

Debate sobre a função de um Ministério da Cultura

Ana de Hollanda (acima, em foto de André Coelho) assumiu na última segunda-feira o Ministério da Cultura (MinC) prometendo em seu discurso de posse “continuar e avançar” com o trabalho realizado por seus antecessores, Gilberto Gil e Juca Ferreira, durante os oito anos de governo Lula. A declaração da ministra espelha o mote da campanha vitoriosa de Dilma Rousseff. Assim como acontece com a presidente, porém, ainda é cedo para saber o que significa na prática a dupla promessa de continuidade e aprimoramento.

Os Pontos de Cultura, a recuperação de cidades históricas e o Vale Cultura foram alguns dos projetos de Gil e Ferreira elogiados pela ministra, que no entanto não mencionou em sua fala o tema mais controverso sob responsabilidade de sua pasta no momento — a nova Lei do Direito Autoral. A afirmação de que a criação deve estar “no centro de tudo”, pois “não existe arte sem artista”, foi interpretada em comentários publicados em sites e blogs como uma defesa indireta de uma política mais restritiva em relação à propriedade intelectual do que a proposta pelos ministros anteriores.

Com recursos que chegaram a R$ 2,2 bilhões em 2010, longe da verba dos maiores ministérios, o MinC ainda assim teve um aumento de repasses constante durante os governos Lula. Se o crescimento indica a valorização da pasta, levanta também a pergunta sobre o caminho que ela deve seguir em sua expansão.

Nesta edição do Prosa & Verso, dez artistas, críticos e produtores de diversas áreas deixam de lado por um momento as discussões que têm movimentado o setor para responder a uma questão mais básica: qual deve ser, hoje, a função de um Ministério da Cultura? Em que áreas ele deve atuar, e seguindo quais prioridades? Os dez breves textos podem ser lidos como um apanhado de sugestões para a nova ministra, mas também como um esforço para repensar a própria noção de política cultural a partir das transformações sociais de nossa época.

Reconhecendo méritos no trabalho dos últimos anos, os autores ainda assim propõem ideias que muitas vezes implicariam numa reformulação das atribuições do MinC. O cineasta Cacá Diegues diz que a gestão da indústria criativa deve ser separada da criação artesanal. O crítico Paulo Sérgio Duarte defende uma reaproximação do MinC com o Ministério da Educação, ideia levantada também pelo artista plástico Cildo Meirelles e pelo músico Jorge Mautner. O poeta Armando Freitas Filho e o escritor Marcelino Freire pedem incremento das políticas de Gil e Ferreira. O editor Roberto Feith diz que o Estado não deve se intrometer na criação cultural. A produtora Mariza Leão pede um PAC de acesso à cultura. Os especialistas em políticas culturais Lia Calabre, da Fundação Casa de Rui Barbosa, e Albino Rubim, da UFBA, cobram investimentos em diversidade e a implantação de projetos elaborados no governo Lula, como o Sistema Nacional de Cultura e o Plano Nacional de Cultura.

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Enviado por Guilherme Freitas e Miguel Conde – 8.1.2011 | 8h55m
As propostas de artistas, críticos e produtores para a cultura

Financiar a diversidade

Albino Rubim

Em uma circunstância republicana, a primeira atitude a esperar de um novo ministério é que dê continuidade às políticas em andamento, evitando algo muito comum e nefasto no Brasil: a descontinuidade administrativa. O campo da cultura é especialmente sensível às descontinuidades, pois, assim como a ciência e tecnologia e a educação, tem um tempo de maturação necessariamente longo. Tais campos devem ser contemplados por políticas de largo prazo e não apenas por políticas de governo. Nesta perspectiva, a implantação do Sistema Nacional de Cultura e a implementação das deliberações das Conferências Nacionais de Cultura aparecem, dentre outros, como essenciais.

Igualmente imprescindível é a mudança da política nacional de financiamento à cultura, pois leis de incentivo não podem sustentar políticas de diversidade cultural, vitais para o desenvolvimento da sociedade brasileira. A diversidade cultural exige uma complexa política de financiamento, que deve incluir leis de incentivo, mas não pode tê-las como eixo dominante.

Mas nenhum ministério novo pode apenas consolidar o existente. Deve avançar e inovar. A constituição de um programa nacional de formação e qualificação em cultura atenderia uma das reivindicações mais evocadas pela comunidade cultural brasileira e enfrentaria um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento cultural do país.

Albino Rubim é professor da Universidade Federal da Bahia e organizador de “Políticas Culturais no Brasil” (2007).

Cultura e educação

Paulo Sérgio Duarte

O maior problema atual das políticas culturais do governo federal é a distância entre os ministérios da Cultura e da Educação. Essas duas áreas têm que ser pensadas conjuntamente, como acontece em diversos países do mundo. Dizer que os currículos escolares devem ser pensados de um ponto de vista cultural não significa defender simplesmente aulas de educação artística, mas uma reformulação do ensino para que todas as disciplinas sejam ensinadas levando em conta o cotidiano dos alunos. É preciso mostrar como o conteúdo se relaciona à vida em sociedade. Isso se aplica tanto à matemática quanto à literatura, que hoje por exemplo é ensinada muito mais numa abordagem histórica, de sucessão de escolas literárias, do que de maneira que desperte interesse pela leitura.

Paulo Sérgio Duarte é crítico de arte.

Incrementar conquistas

Armando Freitas Filho

Para mim, não é exatamente o caso de mudar, mais de incrementar as políticas culturais implantadas pelo ministro Gilberto Gil. Os Pontos de Cultura, por exemplo, que incentivam a produção cultural com grande capilaridade por todo país devem propiciar maior visibilidade aos escritores e à literatura. Tenho certeza que a ministra Ana de Hollanda, com sua sensibilidade e experiência na área cultural, saberá escutar as vozes, geralmente esquivas ou esquecidas, dos escritores brasileiros.

Armando Freitas Filho é poeta.

Indústrias criativas

Cacá Diegues

As indústrias criativas hoje são um fator importante para os PIBs nacionais, o terceiro setor de exportação dos EUA, e tema de discussão no mundo todo. Esse setor industrial deveria ser do âmbito de um órgão distinto do que cuida de políticas voltadas para o folclore, os costumes regionais, até mesmo para a preservação de memória. Não faz sentido um filme de longa-metragem disputar verba com o maracatu rural de Pernambuco. É como botar num mesmo orçamento uma hidrelétrica e uma olaria. Ambos são importantes, mas têm que ser tratados em órgãos distintos, assim como existem ministérios do Agronegócio e da Agricultura. Quando o Ministério da Cultura saiu do Ministério da Educação, não se definiu muito quais eram as atribuições do MinC. Essa é uma discussão que ainda está por se definir. Temos que repensar para que serve o Ministério da Cultura.

Cacá Diegues é cineasta.

Estimular o desenvolvimento

Cildo Meirelles

A maior contribuição que o Ministério da Cultura pode dar, sempre, é não atrapalhar. A cultura, claro, é uma área com muitas questões a serem discutidas. Algo que ainda está por ser desenvolvido é uma imbricação maior entre cultura e educação. Não necessariamente aulas de arte, mas pelo menos uma ampliação no acesso à produção cultural. Se a arte por um lado se caracteriza pelo seu descompromisso com a função, com a aplicação imediata, por outro as sociedades que se distanciam da produção cultural entram em declínio. Arte não é algo que se possa ensinar, mas o Estado pode criar meios propícios para uma autoeducação, aquela que o indivíduo vai buscar para se desenvolver.

Cildo Meirelles é artista plástico.

Consolidar e aperfeiçoar

Lia Calabre

Nos último oito anos, o MinC vivenciou um processo de ampliação e diversificação de suas ações, passou a ter efetiva presença nacional, elevando o campo da cultura ao das políticas públicas. Os maiores desafios da nova administração são a consolidação e o aperfeiçoamento de uma série de processos iniciados na gestão anterior.

O Sistema Nacional de Cultura (SNC), que ainda é um projeto de lei em tramitação, é uma ferramenta fundamental para efetivar a ação nacional do MinC. Ele será composto por uma série de subsistemas (de museus, de patrimônio, do livro e da leitura, de bibliotecas, os dos campos das artes, entre outros), havendo ainda o incentivo à criação de conselhos e órgãos gestores de cultura nos outros níveis de governo. Uma das principais ações federais deve ser apoiar o fortalecimento do fazer cultural no nível local. O SNC permitirá maior agilidade na relação entre Ministério, estados, municípios e distrito federal.

O Plano Nacional de Cultura (PNC), sancionado em dezembro, estabelece alguns dos nortes a serem seguidos pelo MinC nos próximos dez anos. O PNC abrange um universo de diretrizes e, dentre elas, algumas deverão ser priorizadas para os próximos quatro anos. É hora de consolidar programas e ações que se mostraram eficazes, realizar acertos de rota, implementar projetos testados e aprovados, dotar o país de uma efetiva política pública de cultura, que siga sendo construída democrática e participativamente, como política de Estado.

Lia Calabre é chefe do setor de Políticas Culturais da Fundação Casa de Rui Barbosa.

O Estado no lugar devido

Roberto Feith

Não acredito no Estado indutor da Cultura ou da produção cultural. Não creio que políticos e servidores públicos saibam melhor do que artistas e autores que tipo de cultura deve ser produzido, ou como fazê-lo.
Penso que a produção artística e cultural deve ser resguarda por leis que garantam a liberdade de expressão e os direitos dos criadores, para que ela se desenvolva sem interferência dos governos.
Mas existem áreas nas quais a atuação do Estado no campo cultural é não apenas apropriada, como necessária; áreas onde a sociedade civil não está presente, ou, se estiver, não atende às necessidades da sociedade.
Por exemplo: a defesa do nosso patrimônio histórico. O financiamento aos museus. A ampliação e qualificação de bibliotecas públicas.
Acredito que o grande desafio do Estado no campo cultural seja atuar com vigor e eficácia nos segmentos em que só ele pode agir.

Roberto Feith é diretor da editora Objetiva e vice-presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros.

O espaço da literatura

Marcelino Freire

Verifiquei no discurso da Dilma que ela usou o termo “literatura”. Coisa rara. Sempre é citado o cinema, a música, o teatro… E, para a “literatura”, nenhuma palavra, nenhuma linha. Cobraremos esse compromisso. É preciso que o governo preste atenção em todos os movimentos literários que têm acontecido pelo Brasil — como os saraus que estão rolando na periferia de São Paulo. No ano em que o Brasil será o homenageado da Feira de Frankfurt (em 2013), durante a gestão da Dilma, é preciso que os novos/jovens escritores sejam lembrados, traduzidos. Um ponto positivo da gestão do Juca Ferreira era esse ouvido plural, geral. Claro que, muitas vezes, eu me sentia fazendo número — atendendo exatamente a essa cota mais representativa. Mas, de qualquer forma, vi que o setor criativo da literatura (o dos escritores) foi sendo igualmente ouvido, chamado, convocado. Nunca houve tantas bolsas de criação e prêmios literários sendo instituídos. Mas é preciso que aquilo que ocorre “ocasionalmente”, digamos, vire lei. É preciso que o escritor enquanto criador seja lembrado e protegido no Fundo Nacional de Cultura.

Marcelino Freire é escritor.

Revolução no consumo

Mariza Leão

A ascensão de quase 30 milhões de pessoas à classe C, saindo da pobreza, terá um peso monumental no consumo em toda a cadeia da economia, inclusive na cultural. Já existe hoje uma perspectiva de crescimento muito grande, que no entanto esbarra na falta de meios de acesso aos bens culturais. O Brasil precisa de algo como um PAC de infraestrutura cultural, com vias de escoamento para seus filmes, músicas, livros. Um dos projetos mais importantes do governo Lula foi o apoio à criação de salas populares de cinema, mas hoje ainda estamos bastante aquém do que seria o desejável. As classes populares sempre foram as que mais prestigiaram o cinema nacional. Com investimento, podemos passar por uma expansão revolucionária no acesso à cultura. É preciso que o MinC atue pensando em duas vertentes, a da indústria criativa, de um lado, e de outro as atividades mais artesanais, com menos viés comercial.

Mariza Leão é produtora de cinema e presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual do Rio de Janeiro.

Cultura do Amálgama

Jorge Mautner

Gostaria que, além de manter os Pontos de Cultura, o MinC continuasse a incentivar a sua multiplicação e a entrelaçá-los com os colégios e universidades.
Que se enfatizasse a História do Mundo e a História do Brasil como temas importantes de meditação e de reinterpretação.
Difundir e enfatizar as descobertas científicas e tecnológicas como discussão e temas artísticos.
Também introduzir o método filosófico de pensar e de examinar qualquer fenômeno através de quatro pontos de vista diferentes entre si, no mínimo.
Levar o MinC com teatro, literatura, música, circo, cinema, TV, para os presídios, para a Febem e orfanatos, para os hospitais e para as pessoas portadoras de necessidades especiais.
Unir o MinC com as ações das UPPs, em todo o continente brasileiro!
Encontros com artistas do resto do mundo, para irradiar o nosso amálgama, amálgama esse que José Bonifácio em 1823 definiu como sendo a alma do Brasil, amálgama esse que é mais do que necessário.
Que a nossa seleção de futebol, quando fosse jogar no exterior, levasse uma plêiade de artistas brasileiros para civilizar o mundo.
E que o MinC realce o trabalho da mulher, sua presença nas artes, na vida, ao dar luz à outra vida, no mundo atual, em todas as profissões, liderando o século XXI!!!!
A Terra precisa da cultura do Amálgama, ou o mundo se Brasilifica ou vira nazista!!!! Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé!!!!

Jorge Mautner é músico.

Enviado por Deborah Berlinck, de Paris – 8.1.2011 | 8h50m

França protege a cultura nacional

Cultura, na França, é quase sinônimo de Estado: não há uma área cultural no país — do teatro aos museus, cinema e literatura — na qual o governo não esteja presente, distribuindo subvenções. Certo, a cultura francesa é mundialmente conhecida, seus museus e o cinema, sobretudo. Mas é este o único modelo possível?

Os próprios franceses, quando confrontados a comparações com o modelo anglo-saxão — anti-estatista e radicalmente liberal — fazem esta pergunta. Num debate em abril passado na rede de televisão France 24, espécie de CNN francesa, a pergunta era: a quase onipresença do Estado na cultura fez aumentar a influência ou a difusão da cultura francesa no mundo?

Preço fixo para livros e subsídio ao cinema nacional

Os três convidados não responderam claramente. Mas concordaram num ponto: a presença do Estado impediu a morte do cinema francês, como ocorreu, em parte, com o cinema italiano. Apesar disso, cineastas franceses admitem que suas obras são cada vez menos exportadas, mesmo para países francófonos.

O governo francês defende sua cultura com unhas e dentes, apoiando-se num conceito de “exceção cultural”, que, em outras palavras, quer dizer: a França tem uma especificidade cultural que os outros não têm, e que precisa ser defendida e protegida. O termo hoje foi substituído por um conceito mais amplo: diversidade cultural.

O resultado disso é um sistema de ajuda automática do Estado às áreas de cultura. Por exemplo: 11% do preço de cada ingresso de filme difundido no país — sejam ele francês ou não — são coletados pelo Centro Nacional de Cinema, que repassa o dinheiro para criadores e distribuidores de filmes franceses. Em outras palavras, filmes estrangeiros acabam também contribuindo para subsidiar a cultura francesa.

No caso da literatura, a proteção não vai apenas para os escritores, mas para os que divulgam suas obras. A França criou uma lei que estabelece um preço único para o livro, para evitar que as livrarias independentes sejam massacradas pela concorrência dos gigantes da distribuição. Jack Lang, ex-ministro da área, costumava dizer que cultura “não é uma simples mercadoria”. Para ele, sem a lei do preço único “não haveria nem liberdade de escrever, nem de editar”.

Em 1993, a França comprou uma enorme briga com os americanos na Organização Mundial de Comércio. Tratava-se de evitar que produtos culturais tivessem que se submeter às mesmas regras de livre comércio que um produto industrial qualquer. Os franceses ganharam a batalha. Para defender sua cultura, a França não mede esforços. As rádios são obrigadas a dedicar 40% de sua programação musical às músicas francesas ou de língua francesa. A indústria cinematográfica produz 200 filmes por ano.

O modelo é criticado pelos anglo-saxões. Em 2007, o jornalista americano Donald Morrison, da revista “Time”, provocou uma enorme polêmica na França ao decretar, no título de seu artigo, “a morte da cultura francesa”. Para ele, o Estado sufoca a criação. Vários intelectuais partiram em defesa do modelo. Um ano depois, a França comemorava sua revanche com a notícia de que J.M.G Le Clézio ganhou o Prêmio Nobel da Literatura. Morrison explicou que o título do artigo era uma provocação para chamar atenção para o fato de que as grandes criações ocidentais não são mais produzidas pela França.

— Meu artigo tratava mais do recuo da cultura francesa e partia da constatação de que o essencial da criatividade ocidental está acontecendo há anos em outros lugares, em particular, em Londres, Nova York e Berlim — disse o americano, num debate no jornal conservador “Le Figaro”, em outubro de 2008.

Ele citou como exemplo romancistas franceses que escrevem “para eles mesmos” e “não descrevem mais o mundo”, como os grandes autores franceses do passado. Em consequência, suas obras acabam sendo pouco traduzidas no estrangeiro. E concluiu que por conta da superproteção e das subvenções do estado, a cultura francesa “parece ter renunciado a se dirigir ao mundo”.

Já Caroline Fourest, cronista do jornal “Le Monde”, sustentou no debate da televisão France 24 que a presença do Estado não impediu a participação da iniciativa privada. Ao contrário, estas duas forças juntas possibilitaram uma “enorme diversidade” cultural no país. Caroline disse ainda que o grande cinema italiano morreu porque o Estado deixou de apoiar a área.

— Ao que sei, muitos americanos estão felizes de vir para a França desfrutar desta diversidade cultural, o que quer dizer que (nosso modelo) funciona — observou ela.

Como lembrou Olivier Poivre d’Avor, atual diretor do France Culture, ainda no debate promovido pelo “Le Figaro”, três quartos dos turistas vão à França para consumir a cultura. A lei que criou o preço único do livro, segundo ele, é “uma formidável invenção francesa”.

— Uma livraria francesa pode ter até 100 mil títulos e você acha autores americanos, franceses, de Madagascar, do Chade. Quando vou a uma livraria americana padrão, não encontro esta diversidade. Vão me propor uma escolha de 20 mil livros e 50 filmes que pretendem resumir o mundo. Ora, o mundo não é para ser resumido. É isso que os americanos não entendem — disse Poivre d’Avor ao “Le Figaro”.

Modelo francês é criticado por anglo-saxões

No debate do canal France 24, a americana Ruth Kirstein, atriz e diretora de teatro, fez a crítica recorrente no mundo anglo-saxão em relação aos franceses: por conta das subvenções, disse ela, “há muito de tudo” na produção francesa, inclusive de qualidade duvidosa.

— Há muita coisa com qualidade não confirmada. Mérito tem que ser um critério (da subvenção) — diz a atriz, que só fez exceção em relação à boa qualidade do cinema francês, que ela atribui ao olhar exigente do público.

Para Kirstein, o Estado acaba “determinando o que deve ser considerado como arte”.

A cronista do “Le Monde”, Caroline Fourest, discordou:

— A cultura na França é tão diversificada que não temos o sentimento de ter o Estado por trás. Temos o sentimento de ter uma escolha imensa em várias áreas artísticas.
A cultura é estrategicamente tão importante no país que numa época de crise e corte de gastos não apenas na França, como no resto da Europa, o ministério da Cultura garantiu para 2011 um aumento de 2,1% em relação ao orçamento do ano passado, o que dará um total de 7,5 bilhões.

— Enquanto a maior parte dos países europeus escolheu cortar seus orçamentos, a França fez uma escolha diferente — disse Frédéric Mitterrand, ministro da Cultura. — A oferta cultural é um elemento determinante da nossa atratividade e do nosso desenvolvimento econômico.

Enviado por Fernanda Godoy, de Nova York – 8.1.2011 | 8h45m

EUA entre o mercado e os mecenas

Nos EUA, onde a crença no indivíduo e na iniciativa privada é muito mais forte do que a confiança no governo, nem ao menos existe um Ministério da Cultura. O órgão federal responsável pelo estímulo ao setor cultural é o National Endowment for the Arts (NEA) , com um orçamento de US$ 161 milhões para 2011, definido como “patético” por seu diretor, Rocco Landesman — também conhecido como Mr. Broadway pelas montagens de sucesso de “Angels in America”, entre outros sucessos. Desde que foi criado, em 1965, o NEA investiu US$ 4 bilhões em bolsas e programas de incentivo às artes.

Embora minúscula em comparação com os bilionários orçamentos dos grandes Departamentos (Ministérios), a destinação oficial de verbas para as artes está sempre vulnerável a cortes, especialmente em momentos de crise econômica, como agora. Por isso, Landesman criou o slogan “Art works” (um jogo de palavras que significa que a arte funciona mas também que ela “trabalha”), para vender a ideia de que a cultura gera empregos, e por isso merece incentivo. Do pacote inicial de US$ 700 bilhões de estímulo à economia aprovado pelo governo americano após a crise de 2008, apenas US$ 50 milhões foram destinados às artes.

Depois de reconhecer, quando teve seu nome aprovado pelo Congresso, que precisava “diminuir a choradeira”, Rocco Landesman tem viajado pelos EUA para promover seu “Art works”, e as viagens são normalmente organizadas por fundações, os grandes patronos das artes e da cultura no país. Os americanos têm uma longa tradição de filantropia no setor cultural, especialmente nas artes visuais, concertos de música clássica, ópera e balé.

Setor privado prioriza artes convencionais

Várias das instituições culturais mais importantes do país, como o Museu Metropolitan (foto ao lado), o Carnegie Hall, a Biblioteca Pública de Nova York e até a Galeria Nacional de Arte, de Washington, foram feitas com doações privadas. O banqueiro e filantropo Andrew Mellon, secretário do Tesouro nos anos 1920, doou sua fabulosa coleção de pinturas e grande parte dos recursos necessários para a obra na capital americana, a maior construção em mármore do mundo naquele momento, em 1937. Mellon estava certo em acreditar que seu gesto motivaria muitos outros doadores a abrirem mão de suas coleções em benefício do público.

— Sem dúvida, o setor privado tem um peso enorme na arte nos EUA. Algumas áreas mais tradicionais receberam muito incentivo de fundações como a Carnegie e a Rockefeller, modeladas a partir de um conceito europeu. A Fundação Ford também foi muito influente na criação de instituições de arte e na disseminação de teatros regionais nos anos 1950 e 1960 — explica a professora Joan Spero, especialista em filantropia da Universidade Columbia.

Uma das críticas a este modelo, no qual doações individuais também têm enorme peso, é que as manifestações artísticas marginais, ou de vanguarda, recebem uma fatia menor, e enfrentam mais dificuldade de acesso aos recursos. Para o doador individual, muitas vezes importa mais o prestígio social associado à doação a uma instituição reconhecida.

A solução tem sido recorrer a alternativas na web, como o Kickstarter, um site que arrecada doações para projetos criativos. Os candidatos postam um vídeo explicando sua proposta, que não pode custar mais de US$ 10 mil, e recolhem contribuições online. Pode ser um filme, trilha sonora, peça, mural. O importante é ser criativo.

Enviado por Fernando Duarte, de Londres – 8.1.2011 | 8h40m

No Reino Unido, pasta da Cultura agrega esporte e mídia

Nem tudo são más recordações sobre guerras ilegais quando se pensa no legado do ex-premier britânico Tony Blair. Foi em seus dez anos de governo que a cultura deixou de ser uma área secundária no Reino Unido. Especialmente em comparação com as administrações anteriores — os conservadores John Major e Margaret Thatcher. Entre 1997 e 2007, o orçamento governamental destinado à área pulou de US$ 288 milhões para US$ 638 milhões, mas a injeção não foi apenas de caixa.

Blair cuidou também do ânimo, promovendo um inédito sistema de entrada franca para os principais museus e galerias de arte do país, o que praticamente dobrou o número de visitantes e estimulou aumentos de até 30% nas visitas de indivíduos das classes mais carentes. Um boom que não se restringiu a Londres e que tem na indicação de Liverpool como capital europeia da cultura de 2008 seu principal exemplo.

Ao mesmo tempo, porém, o processo foi marcado por bastante intervencionismo estatal: para começar, o ministério da Cultura se transformou numa super-autarquia acumulando também as pastas de Esporte e Mídia — mais recentemente, por decisão do premier David Cameron, somou-se ao grupo a Secretaria Especial das Olimpíadas de 2012.

Outro exemplo é o Conselho de Artes, órgão responsável pela distribuição das verbas para projetos artísticos, que os críticos de Blair viram transformado num instrumento de ingerência política no financiamento de projetos. Mas esse debate se tornou secundário diante da conjuntura econômica. Se o sucessor imediato de Blair, o ex-ministro das Finanças, Gordon Brown, congelou o orçamento da cultura, a administração Cameron decretou cortes de 25% nas verbas do superministério, atualmente na casa de US$ 2 bilhões.

— As verbas públicas proporcionam que as indústrias criativas tenham mais espaço de manobra para ousar sem tantas pressões comerciais. Essa é uma das razões pelas quais os teatros do West End londrino hoje estejam quebrando recordes de audiência enquanto a Broadway se vê em dificuldades financeiras — pondera David Brownlee, diretor da fundação Audiences UK.

Nem todo mundo concorda com os subsídios estatais, porém. John Blundell, diretor do Institute of Economic Affairs, alega que o sistema é injusto.
— Desde o pós-guerra, o setor cresceu sete vezes mais que qualquer outro da sociedade em termos de verbas públicas, mas nem por isso oferece acesso universal para a população.

Enviado por O Globo – 7.1.2011 | 18h24m

Dez propostas para o Ministério da Cultura, no Prosa de 08/01

Afinada com o discurso da presidente Dilma Rousseff, Ana de Hollanda assumiu segunda-feira o Ministério da Cultura (MinC) com uma dupla promessa de continuidade e avanço. Ainda é cedo para dizer o que significa na prática a declaração da ministra, mas no Prosa e Verso de 08/01 dez artistas, críticos e pesquisadores se adiantam e apresentam ideias para a atuação do MinC nos próximos quatro anos. De uma reaproximação com o Ministério da Educação a uma nova política industrial, as propostas tentam repensar a própria função do MinC, e em alguns casos sugerem que ele deveria ser reformulado. Os correspondentes Deborah Berlinck, Fernanda Godoy e Fernando Duarte fazem um contraponto relatando o estado atual da política cultural e do debate em torno dela na França, nos EUA e na Inglaterra.

José Eisenberg assina um artigo sobre a estética dos videogames. Em sua coluna, José Castello comenta “O olhar da mente” (Companhia das Letras, tradução de Laura Teixeira Motta), de Oliver Sacks. Nas resenhas, “Haskalá – O Iluminismo judaico” (Altadena), de Arnaldo Niskier, por Paulo Blank; e “Os anéis de saturno” (Companhia das Letras, tradução de José Marcos Macedo), de W.G. Sebald, por Frederico Figueiredo. Boa leitura.

Uma dor no outdoor

Eu imagino o que pode ser perder um filho. Lembro de uma mulher num programa de TV, falando que para o filho que perde pais, há a palavra orfão. Para pais que perdem filhos, não há palavra em português. Talvez em nenhum outro idioma. Mas penso que eu conseguiria. Tomaria todos os remédios do mundo. Algumas vezes eles seriam apenas um: uísque. Ficaria sem comer. Me filiaria a uma religião ou duas. Me reconciliaria com aquela amiga que nunca mais eu havia perdoado. Comeria só bolo de cenoura com chocolate. Mas eu colocaria óculos enormes, e saíria de casa um dia. Com medo da luz e das pessoas conhecidas. Andaria por ruas onde nunca estive, pensando que as pessoas, com quem eu cruzaria, não me olhariam como a mãe de um filho morto. Mas como uma desconhecida, meio abatida e com olhar de louca, mas apenas desconhecida. Mas e quem perde o filho e tem de ser vista? Não apenas por pessoas conhecidas. Mas confrontada com opiniões de estranhos, sobre como ela cria seus próprios filhos. Inclusive o que morreu. Exposta na rua, nas vitrines da internet. Em todos os sites, revistas, jornais, noticiários da TV. Eu acho que as pessoas deveriam calar a boca. E parar de fazer algumas notícias. Deveria existir uma lei trabalhista que obrigasse, em casos extremos, o jornalista alegar quebra absoluta de princípios, e assim, poderia simplesmente não tirar a foto, não escrever a matéria. Não obedecer à pauta. E os patrões não poderiam demití-lo por isso. Se demitissem, teriam que pagar multas altíssimas, tipo o lucro de uma tiragem que traz uma notícia sensacionalista grosseira, com fotos de pessoas em velórios.

Sobre sumiços e chá de hibiscus

Então eu sumi, saí por aquela porta e nunca mais voltei. Fui comprar cigarros em outras paradas. Me desiludi com a literatura, parei de escrever as crônicas, para escrever o romance, logo terminei o romance, que nem publiquei, e como não escrevia mais as crônicas, parei de escrever sobre ninharias, coisas comezinhas, delicadezas de instantes. Parei de mim. Fiquei ávara de mim. Achando o que todo mundo que não escreve acha, que tenho pouca história que valha a pena mesmo ser contada. Mas a escrita é um tumor sanguinário, e não escrever uma espécie de fumo potencializado. Você vai querer voltar. E vai pensar em desperdício. Em dom. Em mitos gregos ligados à inspiração. Em inspiração como nascimento. Em geração. Em morte. Em Eros. Em Tanatos. Em sair mais. Em ver até a novela das oito pra ver se assim, para de querer essa coisa besta de ser escritor. E daí um dia você percebe. Não procura frases em meio às ruas por onde passa. Nem transforma aquele beijo do moço de cabelo e blazer de veludo, em texto. Não sucumbe mais à beleza de uma metáfora nova. Pronto. Ufa. Você parou de escrever. Agora a beleza da poesia da vida real. De preocupações com grana, ao invés de estilo. E vai aprender outra coisa. Outra arte. Cozinhar. Ou você acha que as pessoas que não escrevem, ou pintam, ou fotografam, ou fazem uma dessas artes legitimadas_todas elas, não desaguam em outras coisas? Esqueça o poema que diz que palavra trancada isso, ou aquilo. A pessoa, qualquer uma delas, faz lá sua arte. Pode ser um beijo, um doce de abóbora com coco, um jeito de ajudar aos outros, atender ao telefone, arrumar o cabelo, a maquiagem de noivas, fazer esparadrapo em cachorro dos outros, lavar carro, fazer cafuné. Ou algo mais obsceno. Enfim, a pessoa tem lá sua arte, nem sempre ostensiva como nós artistas gostamos de alardear. Daí eu pensei nisso e quis voltar. Quem sabe uma coisa assim, boba. De vez em quando? E fiz poemas insalubres. E tentei uma coluna de riso. E tentei. E descobri que não podia mais. E doía. E eu sofria. E me auto-denominei ex-escritora. Eu que não sou ex de ninguém. Que nunca fui associada a esse ou aquele homem, virei ex alguma coisa. Tem um charme tão decadente ser ex. Tem tanto charme ser decadente. Não. Não tem. Mas um dia uma coisa tola e doida, arremessou-me da cama. E principiei um livro. E para relaxar, para limpar as palavras, voltei aqui. É porque, há muito tempo atrás, alguém falou que eu gastava demais meu texto nos blogs. Mas vou ser sincera, por mais imodesto que isso pareça: isso não é nada. Eu estou aqui, falando de mim. E vocês-eventuais, sim porque você, se acaso existe, é um eventual, pois bem, você me lê aqui e que que tem se eu colocar um conto, uma poesia, algo mais literário, bem, com um pouco de obscenidades, para chamar sua atenção e você, quando me vir, ficar pensando se eu penso mesmo essas coisas, aquela moça quieta, recatada, pensa mesmo tais loucuras? Não penso. Mas escrevo.