Oração do Amor Platônico

(texto de 2004)

Mara Coradello

Vou fazer uma oração porque quero saber de Deus e de você. Como quero ser teológica, vou falar antes de Deus e me referir a ele com maiúsculas. Vou falar antes de Deus, porque quero ser obediente desse amor a Ele antes de todas as coisas. Se bem que você não é apenas coisa. Antes desta oração terminar você ainda é coisa, até literário este mandamento da forma que foi traduzido: amar sobre todas as coisas, sendo todo o resto coisas, então coisificando espaços, populações, toda a coletividade e você. Como se as coisas fossem o chão, e sobre elas o amar a Deus.
Somente antes da oração você é simplesmente coisa, porque para isso serve esta oração, para transmutação.
Mesmo porque não acredito em traduções de hebraico antigo para português contemporâneo.
Vou falar de Deus.
Com meu silêncio.

Quero-o deitado antes de mim na cama, sem lamúrias ser sua e dentro de mim ter o verdadeiro díspare, ser disparidades, poros abertos, cabelos que encrespam dias difíceis e sofrimento – que Deus seja o apaziguador – e potente para que à sombra dŽEle o dia seja apenas um dia_a noite uma noite – e espero ter, ao contrário do que tenho tido_mais coragem de dia do que à noite – como nós, imbecis, tememos mais as margens dilatadas, incabíveis na nossa visão_que são os dias_ e amamos o pequeno e aconchegante espaço onde o que podemos ver se insere e se encerra: as noites.

Deus: que nosso dia seja nosso irmão e que pertençamos à mesma natureza, eu, o dia e Você.

Depois de querer ser apenas da mesma matéria que Deus.

Vem a parte profana de amar você sobre todas as coisas.
O que tenho tido por você é o desejo de saber_quero saber quem é você_esse “quem” em sua totalidade. E em seus riscos.
O maior risco é que depois de saber eu ainda queira.
Como você dorme à noite? De camiseta branca e uma leve bermuda de algodão.
O que come ao acordar_como é sua voz ao acordar?
O que espera do dia? E a marca preferida de dentrifício? O banho e o cheiro que se desprende de seus cosméticos. O horário do banho? Seu café é forte. Açucarado. Uma vez me confessou que não comia gordura – fiquei feliz com esse pormenor como a um presente precioso – e suas manias de mastigação?
Qual o rumo prefere tomar quando entra em seu carro?

E como seria logo após se apaixonar por mim? E aonde poríamos as mãos?
Confesso que não sei aonde por as mãos e os acentos. Qual de nós começará a começar?
Onde precipita o sim?
De conjecturas eu vivo agora, como que com cafeína nas veias.
Comece.

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