Clarice, a moça burra da Veja, mulheres morrendo e eu com isso…

Não sei se isso de fato importa, mas vamos lá, acho que o Fantástico está fazendo no mínimo uma grande besteira, um anacronismo e um desrespeito em mostrar os textos de Clarice Lispector destinados às revistas femininas agora, em plenos 2013, e ainda assiná-los como se fossem de fato Clarice.
Clarice começou a escrever aquelas bobagens logo que separou-se de seu marido diplomata, Maury Gurgel. Corria o ano de 1959 e ela tinha dois filhos. E imagino que não dava pra manter o padrão de vida com venda de seus livros, então ela aceitou escrever para revistas femininas, sempre com pseudônimos.
Se observarmos a obra de Clarice, perceberemos que ela tem um lastro muito mais feminista do que machista, ao menos era sempre arguta a sua construção de personagens, como o cinismo implacável aplicado a burguesa personagem de A Paixão Segundo GH, que adentra o quarto da empregada e se confronta com seus preconceitos, seus medos, seus desejos mais secretos. Ou mesmo se tomarmos uma menina que está à espera de seu príncipe, Macabeia de A Hora da Estrela, vemos como a narradora a maltrata, zomba de sua inocência e a faz simplesmente ser atropelada por sua fantasia de homem rico que viria pra salvá-la. E a personagem que vê os mendigos de Copacabana e os deseja? Mais do que respeito, ela os admira em sua liberdade. Ela os deseja. Há ainda outros exemplos, mas eu teria que fazer uma dissertação para dar conta de tudo. 
O que me deixa atônita é ler que muitos confundem essa Helen Palmer com a Clarice. E apontam essa autoria como se fosse própria, não quero dizer que tudo que o que escritor escreve sob segunda autoria não é dele, mas é como se pegassem um trabalho publicitário de Antonio Torres e o assinassem com o nome dele, e louvassem como obra dele. Não é, nunca será, esse também magistral escritor apenas teve de ganhar seu pão, e sabemos que nem sempre a entradinha que a literatura nos paga dá pra forrar a barriga.
Ou ainda se achassem os trabalhos de Guimarães Rosa no seu mundo da diplomacia, ou tratados de bruxaria dele, e publicassem como se fosse obra literária. 
E sem falar dessa inoportuna glamourização do machismo, num país em que entre 2001 e 2011, a cada uma hora e meia uma mulher morreu de forma violenta. Foram 5.664 mortes por ano, 472 por mês, 15 por dia. E cerca de 40% de todos os assassinatos de mulheres foram cometidos por um parceiro íntimo*…ou seja: um número alarmante de crimes de gênero.
É..mudei de ideia, mais do que anacronismo fazer um quadro com textos de Helen Palmer é aviltante. E só gente como essa moça aqui pode achar isso gracioso, também, VEJA aonde ela escreve (http://veja.abril.com.br/blog/quanto-drama/folhetinescas/7-conselhos-preciosos-de-helen-palmer/#comment-38931)

*Fonte: http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/09/25/apos-lei-maria-da-penha-indice-de-assassinatos-de-mulheres-continua-alto/

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