Carmélia esteve aqui em casa

carméliaEssa senhora veio me visitar, tarde dessas, depois de nosso encontro casual naquela livraria perto da Igreja Santa Rita. E já gosto dela com o fervor das melhores amigas da infância: Carmélia M. de Souza.

Herdeira da fossa de Maysa, a quem nunca perdoou por tê-la roubado um namorado, um tal de Zé Costa. Desculpe se pareço indiscreta, é que é fácil falar da vida íntima de Carmélia, ela mesma se encarregava disso, suas crônicas em primeiríssima pessoa só guardam em segredo um certo Dindi, sobre o qual há muitas conjecturas, pode ser um amigo, um amor, ou vários deles. O certo é que é uma das marcas de Carmélia essa exposição volátil de seu interior, como uma garrafa de vinho a colorir o ar com seu aroma, ou como um mar de ressaca se revirando e trazendo a tona seu humor visceral.

O que posso falar, e nessa afirmação meramente pessoal não cabe juízo de valor, é que Carmélia, Marzia Figueira e Nara Leão e a citada Maysa me fazem ter mais orgulho de ser capixaba do que o Rei Roberto Carlos, ou nosso potencial de logística. Sim, eu gosto de ser conhecida como capixaba. Escritora capixaba não sei bem, não me arvoro a tanto, porém se acham que sou, podem me colocar na estante dos capixabas, porque gosto desse exotismo de ser de um lugar que não é Rio ou São Paulo, e gosto de ser territorializada, de me sentir pertencer, de usufruir de nacionalidade, terra, espaço, tempo e endereço. Eu que já mudei de casa, em determinada fase da vida, duas ou três vezes ao ano, sonho com cartas que me encontrem.

Volto: li Vento Sul, coletânea de crônicas de Carmélia publicada em 2002 numa iniciativa que, pelo que entendi, partiu do Núcleo de Ciências Humanas e Naturais da UFES. O Certo é que descobri um ângulo da Ilha que parece mais comigo do que o presente. Fácil entender, segundo a orelha de Francisco Aurélio Ribeiro, Carmélia era a personificação da década de 60, da contracultura, e eu sou mesmo datada, mas no passado. E Carmélia era afeto, era esperança e tantas palavras que eu, vejam só, achei que tinha redescoberto. Ela já as repetia e inseria na vida há cerca de quarenta anos atrás.

Foi com a felicidade que se tem na seção achados e perdidos, quando encontramos algo que é nosso, ou quando conhecemos alguém de quem muito se ouve bem falar, mas com quem ainda não havíamos esbarrado, que conheci Carmélia. É dela a deliciosa “Teoria Geral da Fossa”. É dela a louvação ao vento sul, fenômeno tão nosso quanto saber fazer moqueca, falar com naturalidade a palavra “gastura” e respirar minério. É dela um “lirismo distraído e distante” que me comoveu. E não poderia deixar de citar que é dela a expressão “esta ilha é uma delícia”, mas a entonação é de puro sarcasmo, importante frisar.

Carmélia, dizem, era a cronista preferida dos capixabas, e era fácil saber onde essa escritora buscava inspiração, nas ruas, com o povo, segundo ela mesma nos deixa antever em seus escritos. Mas não podemos esquecer o uísque, o conhaque e depois, a pinga. E as voltas de lancha à luz do luar e o filé do Britz. Assim como a crítica mordaz a TFC, ou melhor: Tradicional Família Capixaba. E a desenvoltura de Carmélia em meio a amigos de todas as classes sociais, como escreve Reinaldo Santos Neves, em texto ao final do livro: “Carmélia era amiga da mulher do magnata e do pescador fodido que afogava as mágoas na pinga”. E agora Carmélia, quer queira, quer não_ é minha amiga também. E na posição em que ela se encontra, na minha cabeceira, não pode colocar as famosas plaquinhas que volta e meia adornavam sua mesa no restaurante Mar e Terra com os dizeres: “afaste-se, hoje estamos insuportáveis”.

Eu mesma tenho tédio

Eu mesma tenho tédio

da minha cara de escritora classe média

dentes brancos

cara lívida

Eu mesma me decreto

um simulacro de vida

que só lacra a lava de outras que não vicejam

e que ainda diz, sejam

no imperativo hediondo do anúncio do jornal

Sou com exclamação e pouca dor

de quem sempre teve danoninho,

mãe que não bebe nada mais que vinho

pai que trazia brinquedo

tio que era exemplo

avó que contava segredo

tudo organizado, enumerado, nome à caneta no meu copinho

Uma vocação de casa, escola, analista, vestidos, tinta de cabelo, cinema, academia e olhe aquele sapato.

Eu mesma tenho tédio e procuro a loucura,

como quem flerta com o tempo

com a promiscuidade do verso

com o balançar do lira

com a meteção da rima

e o cacete do poema

Eu mesma tergiverso

sobre homem nos trilhos do trem

quem o esmagou de fato?

Quantas mortes nos trilhos do trem da indiferença fazemos com nosso assentir?

Eu mesma me despeço

Arranco a folha imaginária dessa máquina de pixel

te amasso

te arremesso na lata do lixo de Borges

Na Biblioteca dos Livros que Não Foram Escritos

Dos que deixam o poema virar dor

Dos que deixam o verso os arremessar da ponte

Dos que matam em si o filho romance

Dos que abortam a  filha crônica

Que nem chegam a dar nomes aos netos livros

Esses que não escrevem as palavras e sim arranham  a existência

com cada uma de suas miseráveis vidas

E para eles que eu vejo apenas o inútil da brincadeira de vaidade

da futileza

de toda delicadeza  escrita

Essa gente que ejacula poesia antes que se torne a epopeia de nomes, mercado, vinho ruim no lançamento e silêncio na estante.

Obra de Aya Haidar.
Obra de Aya Haidar.

Oração do Amor Platônico

(texto de 2004)

Mara Coradello

Vou fazer uma oração porque quero saber de Deus e de você. Como quero ser teológica, vou falar antes de Deus e me referir a ele com maiúsculas. Vou falar antes de Deus, porque quero ser obediente desse amor a Ele antes de todas as coisas. Se bem que você não é apenas coisa. Antes desta oração terminar você ainda é coisa, até literário este mandamento da forma que foi traduzido: amar sobre todas as coisas, sendo todo o resto coisas, então coisificando espaços, populações, toda a coletividade e você. Como se as coisas fossem o chão, e sobre elas o amar a Deus.
Somente antes da oração você é simplesmente coisa, porque para isso serve esta oração, para transmutação.
Mesmo porque não acredito em traduções de hebraico antigo para português contemporâneo.
Vou falar de Deus.
Com meu silêncio.

Quero-o deitado antes de mim na cama, sem lamúrias ser sua e dentro de mim ter o verdadeiro díspare, ser disparidades, poros abertos, cabelos que encrespam dias difíceis e sofrimento – que Deus seja o apaziguador – e potente para que à sombra dŽEle o dia seja apenas um dia_a noite uma noite – e espero ter, ao contrário do que tenho tido_mais coragem de dia do que à noite – como nós, imbecis, tememos mais as margens dilatadas, incabíveis na nossa visão_que são os dias_ e amamos o pequeno e aconchegante espaço onde o que podemos ver se insere e se encerra: as noites.

Deus: que nosso dia seja nosso irmão e que pertençamos à mesma natureza, eu, o dia e Você.

Depois de querer ser apenas da mesma matéria que Deus.

Vem a parte profana de amar você sobre todas as coisas.
O que tenho tido por você é o desejo de saber_quero saber quem é você_esse “quem” em sua totalidade. E em seus riscos.
O maior risco é que depois de saber eu ainda queira.
Como você dorme à noite? De camiseta branca e uma leve bermuda de algodão.
O que come ao acordar_como é sua voz ao acordar?
O que espera do dia? E a marca preferida de dentrifício? O banho e o cheiro que se desprende de seus cosméticos. O horário do banho? Seu café é forte. Açucarado. Uma vez me confessou que não comia gordura – fiquei feliz com esse pormenor como a um presente precioso – e suas manias de mastigação?
Qual o rumo prefere tomar quando entra em seu carro?

E como seria logo após se apaixonar por mim? E aonde poríamos as mãos?
Confesso que não sei aonde por as mãos e os acentos. Qual de nós começará a começar?
Onde precipita o sim?
De conjecturas eu vivo agora, como que com cafeína nas veias.
Comece.

Bandeiras que fincam

Andei pelo meu bairro, cada bandeira na janela, doía, doía dentro daqui, como hastes fincadas, não apenas içadas. 

Drama?

Mas é só um jogo, digo a uma mulher sorridente no caixa do banco onde fui pagar contas. Digo sem acreditar…

Só um jogo se eu não tivesse sido criada em volta de uma TV ligada, atenta ao Vasco do meu pai, depois embevecida pelo Flamengo do meu irmão, torcendo sem motivo algum por um Fluminense (esporadicamente). Só um jogo se eu não tivesse amado me divertir com Taffarel, Bebeto, Leandro, Romário, Rivaldo, Raí (lindo), Ronaldo, Branco, Leonardo, Robinho, até Dunga…

Como se eu não conhecesse os rostos que encontram nessa alegria uma de suas únicas alegrias.

Não quero escolher as alegrias de outrem.

Queria ser como aquele que diz que agora vamos deixar de acreditar que somos (só) o país do futebol, mas olha, eu acho que tristeza não ajuda em nada, que revolta cega nos leva a quebrar coisas, não a construí-las, que terrorismo, mesmo que poético, apenas ergue pensamentos, não um país. 

Que com alegria também nos tornamos mais exigentes, porque queremos mais alegria, e quiçá, felicidade. Que alienante e paralisante mesmo é uma tristeza dessa magnitude. Nos amolece mesmo as pernas a tristeza, alegria nos põe inteiros.

E para os que falam que não reparamos nos mortos do viaduto e sim na lesão do Neymar: quem está confundindo as dores é você, amigo, a nós cabem duas dores distintas, se não falamos na primeira pode ser justamente por achá-la mais dolorida, aprenda: calar nem sempre é não dar importância.

O que sei é que dói muito ter perdido, mas dói mais ainda não termos lutado de verdade. É só futebol, mas é parte importante de nossa identidade, nós tão diversos e tantos, nos unimos ali, e sem ufanismos, eu mesma acho patriotismo um perigo. A Alemanha sabe bem disso…

O texto está ruim, admito, mas o dia não está tão bom assim…um dia reescrevo. Ah se jogo também pudesse ser reescrito. Mas sabe que acho que pode? Mas nas canetas de pernas daqui a 4 anos. E dizem que tem até um gol chamado “gol de caneta”. Risos.

O vinho e o slogan ultrapassado da década de 80

Aquele slogan de comercial da década de 80 e início de 90 está mais atual que nunca: o mundo trata melhor quem se veste bem. Mas se estivermos mal vestidos e formos brancos, não aconteceria o que houve nos Supermercados Ok. Um policial militar e estudante de direito foi comprar duas garrafas de vinho, de bermudas e chinelo havaianas. Sim, igual ao advogado que aquela professora da PUC humilhou. Após a compra da mercadoria, duas garrafas de vinho que ele pretendia tomar com sua namorada, ele passou no banheiro, quando foi abordado pelos seguranças. “Abordado” é eufemismo, tendo em vista que ele foi obrigado a tirar a roupa. A equipe de marketing do Supermercado se contradiz, fala que não houve o incidente, mas está procurando as imagens. Racismo é crime, inafiançável. Sim, o estudante de direito é negro. E antes de qualquer averiguação de imagem, senhoras e senhores do marketing do OK: cabe um pedido urgente de desculpas, de consternação, de solidariedade, e algumas garrafas de vinho também seria de bom tom, de presente para o senhor que foi rudemente humilhado. Na verdade, não apenas ele, mas todos nós humanos e congêneres não prescindimos dessas sinceras desculpas, e não adianta vir com desconto no vinho, estamos bem sóbrios, alertas e atentos a sua postura.