Sobre sumiços e chá de hibiscus

Então eu sumi, saí por aquela porta e nunca mais voltei. Fui comprar cigarros em outras paradas. Me desiludi com a literatura, parei de escrever as crônicas, para escrever o romance, logo terminei o romance, que nem publiquei, e como não escrevia mais as crônicas, parei de escrever sobre ninharias, coisas comezinhas, delicadezas de instantes. Parei de mim. Fiquei ávara de mim. Achando o que todo mundo que não escreve acha, que tenho pouca história que valha a pena mesmo ser contada. Mas a escrita é um tumor sanguinário, e não escrever uma espécie de fumo potencializado. Você vai querer voltar. E vai pensar em desperdício. Em dom. Em mitos gregos ligados à inspiração. Em inspiração como nascimento. Em geração. Em morte. Em Eros. Em Tanatos. Em sair mais. Em ver até a novela das oito pra ver se assim, para de querer essa coisa besta de ser escritor. E daí um dia você percebe. Não procura frases em meio às ruas por onde passa. Nem transforma aquele beijo do moço de cabelo e blazer de veludo, em texto. Não sucumbe mais à beleza de uma metáfora nova. Pronto. Ufa. Você parou de escrever. Agora a beleza da poesia da vida real. De preocupações com grana, ao invés de estilo. E vai aprender outra coisa. Outra arte. Cozinhar. Ou você acha que as pessoas que não escrevem, ou pintam, ou fotografam, ou fazem uma dessas artes legitimadas_todas elas, não desaguam em outras coisas? Esqueça o poema que diz que palavra trancada isso, ou aquilo. A pessoa, qualquer uma delas, faz lá sua arte. Pode ser um beijo, um doce de abóbora com coco, um jeito de ajudar aos outros, atender ao telefone, arrumar o cabelo, a maquiagem de noivas, fazer esparadrapo em cachorro dos outros, lavar carro, fazer cafuné. Ou algo mais obsceno. Enfim, a pessoa tem lá sua arte, nem sempre ostensiva como nós artistas gostamos de alardear. Daí eu pensei nisso e quis voltar. Quem sabe uma coisa assim, boba. De vez em quando? E fiz poemas insalubres. E tentei uma coluna de riso. E tentei. E descobri que não podia mais. E doía. E eu sofria. E me auto-denominei ex-escritora. Eu que não sou ex de ninguém. Que nunca fui associada a esse ou aquele homem, virei ex alguma coisa. Tem um charme tão decadente ser ex. Tem tanto charme ser decadente. Não. Não tem. Mas um dia uma coisa tola e doida, arremessou-me da cama. E principiei um livro. E para relaxar, para limpar as palavras, voltei aqui. É porque, há muito tempo atrás, alguém falou que eu gastava demais meu texto nos blogs. Mas vou ser sincera, por mais imodesto que isso pareça: isso não é nada. Eu estou aqui, falando de mim. E vocês-eventuais, sim porque você, se acaso existe, é um eventual, pois bem, você me lê aqui e que que tem se eu colocar um conto, uma poesia, algo mais literário, bem, com um pouco de obscenidades, para chamar sua atenção e você, quando me vir, ficar pensando se eu penso mesmo essas coisas, aquela moça quieta, recatada, pensa mesmo tais loucuras? Não penso. Mas escrevo.

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7 comentários em “Sobre sumiços e chá de hibiscus

  1. Oi, Mara.
    Cheguei a seu blog por indicação de um amigo que, certa vez, encenou um texto seu.
    Foi uma dica certeira. Me identifiquei com sua escrita, tô explorando seus textos.
    Também escrevo, muito ainda no início, muito ainda no susto. Mas tentando construir impressões. rs.
    Boa sorte. Um abraço.

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