A vida circular tenta ser a vida amarela

Pela primeira vez em toda a sua vida ela comprou um vestido amarelo. Não havia nada demais nisso, mas o amarelo levantou seus cantos de olhos até então caídos.

Os olhares do sol que encontram os mares, ela percebeu ao caminhar na orla da cidade onde mora, estão tomados por este amarelo antigo. Que agora ela veste ao final do dia. E você? Já caminhou numa orla qualquer na hora do dia em que o sol está indeciso em ir embora ou ficar? Ou será apenas que ele tem de ir e se derrama, generoso, em todas as pessoas andantes como um abraço. E as pessoas caminham indiferentes a isso. Medindo pulsações.

Eu caminho para lembrar que sou bicho. Nós os portadores da tarefa de apenas escrever, pensar e tocar suavemente com as pontas dos dedos as teclas que contém letras temos de nos lembrar que somos animais, e carne, albumina e ossos. E não lembrar disso apenas quando dói. Ou quando somos tomados pelo desejo.

Ela nunca havia comprado nada na cor amarela. A cor amarela não combinava com a alma triste dela, anterior aos trinta anos.

Quando ela era jovem, gostava de ser triste e usar preto e fumar cigarros a qualquer hora e alardear que tinha depressão como um aviso.

Agora ela gosta de amarelo. E gosta de ter mais de trinta e de não fazer dietas, e assume que não tem comido tantas folhas assim, que tem se apaixonado com mais serenidade e tem pisado com pés de lã na vida das outras pessoas. Ao menos tem tentado. E muito. E tem conseguido.

E dia após dia, enquanto se torna mais velha, ela gosta mais de viver, até um dia em que, espera-se, ela fique cansada e parta. E gostaria de usar amarelo neste dia. E de que todos os amigos cantassem para ela. Alguma canção que os fizesse lembrar dela.

Ela admite que não gosta mais de quem reclama. De quem reclama muito.

Tem se afastado desses. E também não gosta tanto de quem não bebe nada e de quem tem medo do novo.

E também admite que se proíbe de ser raivosa e exige isso de quem ama.

E além disso, não quer mais nada que ela mesma já não tenha.

Por isso pode caminhar na cor amarela enfim. Por isso pode amar. Mudar de cidade por uns tempos. Lançar o novo livro. Sorrir mais. Não se preocupar tanto com o que falam dela. E nem mesmo não ligar para o fato de não ter tanto dinheiro quanto os anúncios de carros, casas e margarina parecem exigir dela.

Porque é muito feliz descobrir que hoje é um dia amarelo de sexta.

Que o amor é uma tinta que nunca acaba que tinge os dias de mais cor, como um verniz transparente, que torna tudo mais vívido.

E este amor é só dela. Não mais precisa exatamente de alguém para dar este amor.

Ou ainda, precisa de todos. De todos que vê e encontra como uma linda míriade de diferenças e sorrisos.

Viva o vestido amarelo.

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8 comentários em “A vida circular tenta ser a vida amarela

  1. nada de vestir sorrisos amarelos.
    apenas vestidos amarelos. entardeça solar.
    nunca é tarde para chegar bem cedo…
    jamais tarde em ceder-se à felicidade!
    ceda-se

    adorável texto!

    beijos feitos de seda

  2. Querida, nem acredito que te achei! Interessante isso do amarelo, passou a ser minha cor predileta há alguns anos, quando tudo começou a mudar, mas só percebi lendo seu texto. Obrigada. Tenho novidades, Clarice está a caminho, deve nascer até o feriado. Eu e Daniel estamos muito felizes. Saudades, muita!

  3. Não imagino quando você decidiu ser escritora, mas uma coisa eu sei:Foi uma decisão acertada. Você é muito boa nisso!
    Abraço.
    Carlos

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