A vida circular sonha e chora

Aqueles minutos no paraíso antes do sono intermediado por remédios.

O meu sono é contrabandeado pelas substâncias adoráveis, mas antes dele chegar, me arrasto até o computador. E escrevo e-mails para você, que com sua cara de porteiro e sua terrível ignorância nunca vai entender, nem retornar, talvez nem leia, sua mulher pode apagar antes. Uma coisa que seria bem a cara dela e dos cabelos pintados de loiro aguado, com a raiz aparecendo, secos e combinando com o batonzinho dorado da Natura.

Foda-se querida.

Um texto ácido depois da vida circular transar em dois meses, com mais de seis homens, sendo que um deles, você mesmo, cara de porteiro, mais que os outros.

O que você realmente queria? Que eu ficasse te esperando?

No ombro do maior deles a vida circular chorou, misantropa de si mesma, odiando cada fibra de desejo de seu corpo que não a atendia, não a socorria, se escondia e penava atrás do outro. Do homem com cara de porteiro.

Do pangaré. Seu pangaré.

Histéricas que gozam no sofrimento, meninas que sucumbem à promessas do destino fácil, renas que não existem a não ser em sonhos europeus. Tudo que é mentira parece melhor, azuis inexistentes em pirulitos e sorvetes de um pistache fake.

A cara maquiada. A meia suja virada ao avesso.

O meu amor finda quieto, mas os e-mails gritam ainda e o mais engraçado que pareço possuída, uma espécie de Chico Xavier às avessas (com todo o respeito a esse senhor) recebendo o espírito do porco que me acordou às cinco da manhã para se convidar a vir a minha casa.

Seis da manhã: ele fala que perdeu o papel e que está procurando.

Seis e meia: ele fala que não pode abandonar o amigo que o está acompanhando.

Sete: eu ainda tento domir cheia de clonazepan, leia-se Rivotril, e falo: dois homens aqui em casa nem pensar.

Sete e meia: ele liga novamente e diz que está sozinho, num motel.

Eu, num ataque idiota de curiosidade, pergunto por onde anda o amigo?

Foi buscar duas mulheres, amigas dele.

Na hora vizualizei as amigas. Tenho esse dom ocasional, que, como todos os outros, uso para o mal.

Não uso escrever para publicidade?

Então? O que uma pessoa que usa o dom de escrever para publicidade é capaz de fazer com outros dons mais nobres?

Vi as mulheres.

Entrei no orkut da mulher dele, da mulher oficial.

Adicionei a esposa do caradeporteiro,  que não parava de ligar e por quem eu estava obcecada, apaixonada, ou seja lá o que se pode chamar aquilo que eu sentia no meio das minhas pernas cada vez que pensava nele. Acorrentada?

Perguntei a ela: você sabe aonde anda seu marido, que você insiste em pensar que sempre some ao meu lado? Neste momento ele está num motel, chamado Star, com duas mulheres, um cara e este pó ruim de Vitória, que na verdade é puro remédio.

Ela quis ir.

Fui de táxi e usei a roupa que vesti no nosso primeiro encontro, aquele casual.

Entrei tão facilmente e ela escondida, a moça da portaria só falou meu nome e num quarto onde estavam quatro, mais duas não pareciam fazer diferença.

Eu entrei primeiro.

A cena dantesca. O cara de cara de porteiro deitado, com seu jeans caro, que tenta esconder um bom gosto que tem de ser comprado, que tem de custar caro, apenas para tentar acertar.

Me convidava para deitar ao lado dele. As garotas?

Tristes. Uma delas talvez tenha menos de 17. A outra parecia um travesti.

Sujas. Como são as coisas que ficam muito tempo nas ruas.

Olhei a tudo e especulei sobre a possibilidade de sair logo, mas ele me olhava com olhar doce. Depois de sumir por dez dias. Depois de não responder a meu e-mail. Depois de deixar bem claro, por tudo isso, que eu mais era um pano de prato sujo, na beira de alguma pia, que na falta de outros, enxuga copos. Depois de marcar diversas vezes, sumir e nem se explicar.

Telefonei e falei sorrindo para ele: tenho mais uma surpresinha para você.

A mulher dele estava ligando a câmera, atrás do carro, na garagem daquele quarto daquele estabelecimento duvidoso, sujo, onde os colchões são espumas cobertas de curvim.

A mulher dele ainda tem sentimentos nervosos, eu não. Fiquei estática vendo a linda cena. A que parecia travesti tentava arrancar cabelos dela. A menina de toalha falou “misericórdia” e saiu correndo por uma porta qualquer, que talvez seja aquela por onde vem a conta e o café nos motéis.

Eu calada.

Só falei o apelido terrível pelo qual ele é conhecido e pedi para que ele defendesse a mulher, a esposa, a mulher oficial. A cornuda, a chifruda, mas que ainda deve acordar ao lado dele todos os dias. Bem, quase todos os dias.

Depois eu disse algo a respeito dele ter mais cuidado ao se envolver com mulheres inteligentes. Claro que eu falava a meu respeito. Mas nem sei se acredito muito nisso. Uma mulher inteligente continuaria dormindo, diria não e se casaria com aquele americano doce que me convidou para conhecer o mundo há mais de dez anos.

Eu ainda tomei café da manhã com a esposa dele. No meu caso com dois cigarros. No dela com muita calma.

Que, convidada por mim,  deixou a cena do crime com muita coisas gravadas na sua cãmera rosa bebê cintilante.

Ela deve chantagêa-lo e ajudar a transformar ainda mais a vida dele num inferno.

A minha já está um. E quente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s