A Vida Circular

Caminho pelo bairro por onde meus pés me levam. Rua da Lama. Supermercado Gigante Cor de Salmão. Salmão mesmo. Que me recuso a usar a palavra salmon. No cú a palavra salmon. Então a vida é circular. Não no sentido de que a vida é andar por aí, a vida é circular. Como as praças do meu bairro. Isso pode ter me dado por algum tempo a ilusão de que continuar com o Cara Grosseiro era a coisa mais natural a fazer. Era tudo um círculo e aparentemente círculos são próximos de voltar. De parar no mesmo lugar em que se começou. Não. A vida não pode ter essa singularidade trivial. Esse desleixo dos acontecimentos. Esse bombear devagar do sangue que nem é quente. É morninho. Vamos lembrar de coisas mornas. Uma mamadeira de bebê. Um vômito. O acento do vaso sanitário quando houve alguém sentado por horas nele antes de você. A vida tem que ter frenesi. Tem de haver fissuras na vida, mas que elas respeitem os limites do auto-respeito. E uma vida inteira num dia é minha forma preferida de viver. Bebo o quanto eu quero agora. Fumo o quanto preciso e ainda páro de fumar exatamente no momento que gostaria de. Sem ninguém roubando meu oxigênio fumando no quarto enquanto durmo. E ainda tem a sensação de andar pelas ruas sem ninguém vigiando para onde olho. E sem ninguém censurando se eu olho demais para aquela franja do rapaz no escuro do meu bar preferido. DO MEU BAR FAVORITO. Onde ninguém tem nada com a minha vida. Onde eu pago as minhas contas. Onde os garçons sabem meu nome. Onde a música é mágica e é realmente um templo. E se o dono é ligeiramente mal humorado, o que importa? Melhor ainda, porque assim afasta todas as pessoas viciadas em gente treinada. Como odeio animais no circo, também acho estranho atendimento com falsos sorrisos. E para quem namorou um fã absoluto dos Beatles, eu tenho um segredo: prefiro The Velvet Underground & Nico. E prefiro o punk. E o jazz. E até gosto da Amy. E sou uma velha adolescente, porque plagiando Liz Taylor, eu faço desanirvesários a cada ano. E nem me importo com meus roncos e com a o que outra pessoa vai comer. Porque sou fã de pessoas independentes. E de cuidados divididos, não centrados em um só. E detesto descontroles e crises histéricas. Sim, homens podem ser histéricos, Freud mesmo se assumia como um. Mas o controle sobre minhas emoções reside exatamente no descontrole e eu não acredito que você ainda não tenha aprendido sobre isso. É só falar o que pensa quando pensar. E assumir-se. Quem não fala o que pensa acaba gritando o que pensou meses antes. E sobre o fato de você, Cara, ter segurado meu braço e me jogado aquele copo de cerveja no rosto, não se preocupe. Já existe uma queixa e se ousar se aproximar novamente de mim você vai preso. Medida cautelar. Exigir a distância é tudo que eu quero agora, poderia querer que você se torne mais feliz e mais manso. Que encontre uma ocupação que pague suas contas, seus vinis e seus sonhos de viagens e casacos. Mas de verdade eu quero que você encontre alguém, para que eu não habite nem mais em seus pensamentos, para que me exclua de toda e qualquer menção. Não vou me estender sobre o que eu mereço ou não, mas juro que se você se aproximar te meto na cadeia. E por muito mais de uma noite.

(trecho de meu novo livro, em construção, junto com o antigo, e totalmente ficcional)

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