Barbieri

Deus teve pena do meu desejo. Deus teve pena de mim com um pires sentimental na mão. Com a inglória deste brilho obsceno no olhar. Meu desejo é esse cego bailarino que insiste em não andar nas pontas dos pés. Meu desejo extraviado. Meu desejo é uma carta com um só remetente, e esse nunca está em casa. E meu desejo retorna a mim. Com selos do descaso e carimbo de devolvido.

Eu sou a trilha do Último Tango em Paris. Meu coração é aquele apartamento abandonado que exige somente um morador. Meu desejo não quer fiador contra infortúnios. Porque meu desejo não faz sentido. Coisas cortantes e estilhaçadas e recolhidas no chão. Como as pequenas flores da ikebana que você não me deu. Meu desejo sai de casa sobre meus pés e me leva junto. Para te ver tocar e ensaiar sua arritmia proposital nas mãos. Meu desejo é uma bateria. Uma qualquer em qualquer música descompassada de jazz improvisado. Meu desejo é novo em folha. E entorna-se perante seus olhos. E meu desejo é singularmente ridículo. Com as coisas ainda desprovidas de amor.

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