Exercício preparatório para crônica

Então Felipe Raizer, o que eu acho é parecido com o que você pensa, acho eu. E tenho até pensado em fazer tatuagens. Mas o que acho, que falo aqui, é sobre a pessoa virar filme, a pessoa que tem um livro, um conto, uma crônica, ou mesmo a pessoa que tem uma vida e daí aparece um diretor X e transforma esse livro, conto, crônica ou mesmo a vida dessa pessoa, em filme. Seja curta, seja longa, seja clip. Quando falo filme, falo de uma obra audiovisual, sem me ater a especificidades, sem me ater a nada. Como bem sou. Desatada.

Então, acho que o filme é uma obra nova e há de se ter respeito e carícia com o que fazem da nossa obra, quando ela é incorporada, fragmentada, adaptada, sambada e até mesmo destruída, ou simplesmente adaptada para virar outra coisa. E é daí que parte minha crença, daí que minha convicção se instala: o filme baseado em algo é outra coisa, diversa, polifônica, e sempre inquietante para o autor da coisa primeira. Mas acho que este autor do livro_ conto, poesia, frase_, acho que ele deveria ficar quieto, principalmente no lançamento do filme. No máximo tomar uns drinques com o dinheiro dos direitos autorais, deixar talvez registrado um pequeno esgar no rosto numa foto da noite do lançamento ao proferir: “Não falarei sobre o filme porque a minha obra foi escrita e embora não acredite que a escrita_e por conseguinte a leitura_ sejam unidimensionais. Eu creio que o filme é outra obra, polidimensional, e essa obra pertence mesmo ao diretor e aos atores, e a até mesmo a pessoa que fez os sanduíches, mas não pertence mais a mim”.

É sobre o mesmo assunto que você quer estudar: sobre a técnica, sobre suportes, e sobre como tudo isso interfere na qualidade final do produto cultural, seja ele livro, filme, música?

Adendo_ Livro? Livro tem suporte?

Sim, se eu trabalho doze horas por dia e se volta e meia ainda sou acusada de “não saber escolher entre ser escritora e ser redatora” como fui ontem. E sim, minha literatura tende a rarear. Ah! Por favor, não estou pedindo piedade, estou pedindo um mecenas. Ou mesmo: que meus pais me dêem mais apoio, ou que meus chefes finjam não ver a minha pasta “Literatura” dentro de meus documentos. Ao menos esse último, convenhamos. Mesmo que Gide tenha sido ladrão, mesmo que Rimbauld tenha desistido, mesmo que Proust, um dos únicos ricos, tenha ficado enterrado numa cama, só para ter uma dor. Eles tinham tempo.

Eu não me perdôo por não ter tempo para escrever. Essa delícia do contato com as teclas e o barulho diáfano destas teclas e o sorriso do leitor, ou a inveja, ou o pacto, ou a indiferença.

Não, ok, a indiferença não.

Será que ninguém escreve sem ter uma dor? Sem vozes nos ouvidos como Virgínia Woolf, sem esconder que é gay para não ser morto, como Wilde, sem apanhar do marido, como Clarice.

Adendo dois_Acho que Guimarães Rosa era um sorridente, um dos poucos gênios sorridentes.

E voltando ao assunto aí de cima, se é para um escritor falar do que se tornou seu livro, que seja assim:

Beijos a todos vocês.

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3 comentários em “Exercício preparatório para crônica

  1. resposta brilhante, e sensata, sobre o que me instigava e sobre o que eu esperava que só você respondesse (pois você é minha referência de mulher, escritora e principalmente mulher escritora definitivamente longe do mediocre).
    Eis que os que fazem birra com o suporte se revelam imaturos, não vamos ignorar a técnica…ela ensina, e se soubermos aprender com ela, ensina muito.

    É que a produção criativa é inevitavelmente envolta a todo o ego que se propõe a criatividade, produzir com pensamento é genial, e o ego ajuda a melhorar isso (já li alguns autores que dizem que o ego é responsável por garantir a vida humana)….. mas até onde isso pode nos levar? até onde pode nos arruinar?

    questões e questões.
    você cumpriu o acordo, então… as fotos que desejava serão suas.

    obrigado por tudo, pelo oq nem sabe que proporciona
    seu querido amigo
    hoje e sempre
    felipe raizer

  2. Nunca vou saber se tem mais ou não. A princípio teria, era um exercício mesmo, mas depois gostei. Porém tive idéia para outra crônica, sobre o amor dos cínicos, por causa do papo de ontem, mas a idéia tem cara de auto-ajuda, Martha Medeiros e por aí vai…Melhor abortar? Beijos! Quando você volta para SP amor?

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