Até os cães cheiram-se

Uma das provas mais irrefutáveis de quanto nos odiamos é aquela virada clássica, sem se levantar, sem olhar nos olhos, com a qual um estranho nos responde ao lhe pedirmos o lugar ao lado, no ônibus. O que me faz pensar em preguiça, mas como não quero estabelecer juízos de valor tão precipitados, vamos por partes.

Eu posso me exibir e contar que sempre me levanto ao me pedirem o lugar da janela, mas seria mentirosa. Porque acho Vitória bonita em sua calidez, bonita em seu círculo de mar, linda em sua Terceira Ponte, e tantas outras paisagens, até em Vila Velha_sempre pego o lugar da janela, que me permite o isolamento de estar aqui e não estar, em forma de um livro, de uma música nova, e de tantas outras formas de fuga.  Ou ainda melhor, quando estou em dias aptos me concentro mesmo em simples tergiversarções, meu esporte favorito.

Mas porque as pessoas não levantam, elas acabam logo com as primeiras dezenas de minutos do meu dia. E mesmo quando são indivíduos de porte grande, viram em direção ao corredor dos ônibus com cara de enfado, como se não quisessem que a gente sentasse ali naquele lugar vago, como se os guardassem para seus fantasmas.

Também não sou uma simpatia de pessoa, e às vezes nem peço licença_quando o lugar vago é no corredor, esqueça. Quero o conforto do ar blasé, mas como estava escrito naquele elevador em São Paulo: até as formigas se cumprimentam. E óculos escuros, mp-players e tantos outros recursos estão aqui para abreviar nosso contato com estranhos. Ou semi-estranhos. Não somente uma vez me vi repetindo em pensamento a frase: não trave contato visual, não trave contato visual. Para não ter aborrecedoras conversas com, só para citar um exemplo, aquela que acabou de fazer mestrado e discursa pesadas teorias na boite, na praia e até no ônibus.

Tanto lugar para não falar, lugares que têm a função de não nos deixar falar. E a pessoa ávida por ouvidos, ali, sem dar uma pausa, uma brecha. Eu costumo falar que estou com dor de barriga. E correr.

Vá lá, que eu já saí de casa louca por interlocutores, mas é preciso checar se o interlocutor quer. Não dá pra fazer estupro do ouvido alheio. Agora, por exemplo, me prolongo além do que planejei ser o bastante, era só para dizer: porra, quando alguém te pedir o lugar da janela, custa levantar e dar um meneio de cabeça, até os cães se cumprimentam.

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2 comentários em “Até os cães cheiram-se

  1. Cara,

    Acabei de ler o artigo sobre o espaço ínfimo da música nas vidas das pessoas, em nossas vidas (?).
    Também achei assustador.
    Feliz com esse seu novo espaço aqui, já li tudo e,por deuses, não travar contato visual é um dos meus mantras desde criança!
    amei.
    vou lembrar de você na próxima viagem.

  2. Aconteceu um caso comigo ontem que me lembrou de seu escrito.
    Recusava aquelas propagandas de sinal, um desperdício de papel que eu abomino. A moça me perguntava as horas e eu, cega e surda, dizia não com a cabeça.
    Demorei segundos demais para perceber o engano, mas ainda deu tempo de gritar as horas para a moça morena e me desculpar comigo mesma. Vergonha de mim.
    beijo

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