O nove pode ser novo
Dezembro 31, 2008
Ando confiante em grandes mudanças.
Desde o final de outubro.
Talvez porque ande confiante em mim.
E confiante nas pessoas e principalmente em gente.
Fiz novos amigos, fiz novos amores. Tratei acordos, desfiz outros e desconstruí e reformei e construí.
E passei a crer novamente com toda a força de minha vontade e com alguma dissimulada desconfiança, que insisto em ter, para não perder o passo firme em qualquer chão.
No dia 25 caminhei no calçadão e vi crianças inaptas com seus novos brinquedos: patins e outros objetos de correr. Skates e bicicletas.
E parecia uma metáfora de como nos sentimos num ano novo no qual a gente se esmera em acreditar que tudo vai ser diferente. Mesmo que seja do mesmo. É que recomeço é coisa que dá dentro da gente e que pode ser sutil e inefável. Como um piscar.
Afinal temos cílios nos olhos para afagar o que vemos.
Que este 2009 seja dentro dos conformes e além.
Que tenha paixão, sucesso, felicidades e um pouco de dor, para lembrarmos do humano a que todos estamos expostos, irremediavelmente e para o gozo ser ainda maior quando chegar.
Um 2009 humano para todos vocês. E com mais histórias para contar, e repleto de amigos para ouvir a narrativa.
Um 2009 que serve de gancho poético para o novo.
NoveNovo. Ave.
O amor acaba
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Paulo Mendes Campos |
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
( E esse último acabou tão, tão rápido, que vai ver nunca foi.)
Quando a vida circular esbarra numa reta
Dezembro 12, 2008
Ele estava ali desde o começo.
E essa portadora da vida circular não o tinha visto, ou tinha, mas havia julgado o rapaz pelas aparências.
E um dia da pior forma possível, às quatro da manhã, a vida circular dela encostou na reta ascendente da vida dele.
Bonito de um jeito brusco.
Alerta a tudo com ferocidade de alegria.
Intenso como uma absolut tomada quente.
As vidas, de duas pessoas opostas, se encontram por cerca de nove horas.
Durou nove horas.
Ela ouviu tudo. Ele contou talvez tudo. Havia o soro da verdade entre eles.
Mas esse encostar aleatório dessas vidas tão diferentes quanto todos os clichês da diferença ( a autora ainda está emocionada e vai voltar para burilar as metáforas) água e vinho, pedra e espuma, olho e boca, pau e côncavo, reta e círculo. Esse encostar a desconcertou.
Vou usar a primeira pessoa mesmo.
Encostar na sua vida grande e vasta me desconcertou. Desconcentrou.
E me fez ter vontade de ter mais. Ao mesmo tempo em que sei que é apenas um estreito, um desses tilintares raros de algum mosteiro que se fez ouvir, uma anomalia, uma chuva de sapos. Um acontecimento furtuito, estranho, que não estava previsto, que não poderia ter havido, foi o que não tinha de ter sido, erámos o que não conseguia ser visto.
Num lugar para não sermos olhados, numa tangente, numa intersecção improvável.
Sua boca caiu na minha.
Sua vida derramada na minha cara.
Meu rosto de lua e o seu de sol.
Sua pele de areia e a minha de nuvem.
Seu gosto de limpo e eu toda suja de vida.
Nossos poros abertos e entrando e entrando e entrando e entrando.
Indefinidamente.
E o maldito João Gilberto que tocou tão fora de hora quanto eu desafinava. Escondendo o choro de nunca mais te ver nos meus óculos. Que não ficaram nada bons em você.
Eu eu pudesse ter apenas mais um desejo. Iria gastá-lo com nós dois?
A Vida Circular e Inédita
Novembro 13, 2008
Viu o homem de terno branco e barba rala, cinzenta.
Ela tinha certeza que o conhecia. Relampejou ao redor do homem.
Ela entrou no carro dele e foi como a primeira vez. E ele falava a voz de um grave. Que ela imaginou que tinham aprisionado um trovão no peito dele, que ele delicadamente emitia pedaços de trovejar.
E ele tinha cílios longos, ao contrário da barba, e eram negros e retintos cílios, e ela viu os cílios como formas dele afagar o que olhava.
O homem tem cílios para afagar o que olha.
Os olhos úmidos pela chuva e pela constância em acreditar. Do caminho bifurcado a certeza da escolha da magia. A bruxaria nas palavras escritas em primeira pessoa inaudita.
Estou certa agora do mergulho, na loucura, naquela brecha de luz que inicia o encontro com o Aleph, nos primeiros delicados dedilhar de piano que antecede uma Gimenopédia de Satie, no anterior aos dentes cortarem com gozo a carne da maçã espumante e importada, no frio dos pés que anuncia o banho no mar do primeiro caldo da infância, no medo do toque da estante em escuro ao sentir o inseto que correu, no primeiro parágrafo de Harmada do Noll, na primeira lida em Clarice escondida das amigas na biblioteca da escola, na hermética sensação de enjoar que causou o primeiro cigarro, naquele vômito surpresa do porre ao onze anos tomando os copos que sobravam da festa dos adultos.
Eu sinto-me bem na minha pele. E sou toda pele agora. Decidi qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_ao descobrir todas essas coisas, três coisas caleidoscópios onde cabem, com folga, todas as outras coisas. Ao descobrir qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_vislumbrei a mim mesma. E o entorno ficou cinza puído e eu acabo de me tornar da cor daquele pó das asas das borboletas. E dizem que se esfregamos aquele pó no olhos, cegamos.
Eu cego.
A Vida Circular
Novembro 11, 2008
A vida circular se mete em ônibus. Vai ao terrível antro de compras perdulárias, chamado shopping center.
Num domingo.
E descobre, estarrecida, que é o dia errado da estréia do filme do Woody Allen. Esse mesmo que tem o ator favorito dessa vida circular.
A vida circular ouve então, um terrível estrondo em pleno shopping. E percebe que a água que havia contornado para encontrar-se com Javier Barden, água no chão, varrida por sorridentes senhoras_na verdade, era água da chuva que foi incontornável. A água arremeteu-se toda contra as reentrâncias das vidraças daquele templo de gastos inúteis. E havia água, e gente correndo, e gente que nem se importava se havia um bebê no colo daquela mulher. E havia pessoas passando por cima do canteiro com seus carros, e os estrondos continuavam, e debaixo das alças da Terceira Ponte, pessoas se aboletavam no escuro, pareciam morcegos gigantes, tentando chegar a lugar algum, enquanto outras quase nadavam, com calças jeans justas, que estão na moda, enroladas nas gorduras de suas pernas morenas. E mães ligando pedindo caronas a filhos que não poderiam chegar, porque seus carros estavam parados em outros cantos da cidade. A cidade sitiada pela água e pela falta de dreno. Soube-se depois que tudo foi culpa de comportas fechadas, de coisas enroscadas. E havia choro de crianças, e afinal, porque algumas crianças insistem em brincar de pique esconde até numa hora dessas? Havia tudo e mais um pouco, mas não havia táxis. A vida circular era assim mesmo, volta e meia tudo retorna à animalidade. A uma corrida desenfreada em prol de um sofá quente e uma copo de chá.
Foi nessa hora, em meio a essa chuva escandalosa, que ela o viu.
Para não contrariar clichês. Para parecer roteiro de filme água com açúcar. Para que sua roupa estivesse molhada bem no peitoral da camisa branca. Para que seu cabelo estivesse alisado pelas águas. Nessa hora, usando um carro como corcel, ele surgiu bem no meio de um raio. Ela teve essa impressão, ou foi o frio na barriga que a torturou e a fez ver luzes?
A Vida Circular_ III
Novembro 7, 2008
Recorro a clichês. E com absoluta leveza de alma e nenhuma preocupação com o que pode acontecer em relação a isso. Me chamarem de clichê? Acho agradável o som da palavra. E gosto da definição de Allain de Boton: ”The problem with cliches is not that they contain false ideas, but rather that they are superficial articulations of very good ones.” Por mais clichê que possa parecer citar Allain de Boton.
Esse trecho da Vida Circular, pensei em começá-lo contando que a cidade se oferece em placas, apelos, e barulhos de polis que se enfeita, se lustra, demole o velho e suave, o que é da altura que vemos sem erguer as cabeças, e em seu lugar, se prolonga até aonde o torcicolo alcança . “EM BREVE AQUI. O imóvel certo para você”. “Sua felicidade está a alguns passos daqui. Venha conhecer o apartamentos do seus sonhos”. “Seja vizinho da natureza”. “More no imóvel perfeito”. “Mude já”.
E a trilha sonora dessa enlouquecida corrida em busca do maior número de compradores é um techno batidão que faria inveja aos meninos do Chemical Brothers. Eu trabalho, até o início do mês que vem, numa casa que dá às costas_casa tem costas?_ para a construção do que vai ser a sede da Petrobrás. No Barro Vermelho. E passo por casas e por árvores, me perguntando até quando elas resistirão.
A respeito da estética dos cartazes das construtoras e dos seus tapumes e placas, eu prefiro não falar nada, porque sinto que serei agressiva.
A respeito da cidade não dar mostras de que vai melhorar com isso, e do meu termo, usado numa crônica, “cidade anabolizada” (por falar nisso, a gente usa aspas para citar a nós próprios?) eu não gostaria de repetir a mesma história.
O que me faz triste hoje é outro motivo, é que não sei se amo algo que está ainda se desconstruindo e se construindo. Então, não sei o que sinto.
O que me fez triste é o entrocamento no qual vivo agora. É essa ruela com bifurcação logo à frente. Não vou contar o que leio nas placas. Mas são muito diferentes. E não apontam para dentro de mim.
Terei de escolher.
Veremos.
Mando notícias.
A Vida Circular Continua
Novembro 4, 2008
Ontem. Não era assim que eu sabia o hoje.
De todas as coisas que não sabemos, as mais assustadoras são as que nem sabemos que não sabemos. As que nem ousamos percrustar. Esse mistério que é adivinhar que vida besta é essa que teremos com mais de trinta anos.
Então é isso, pagamos as contas e descobrimos que a peça de graça no teatro, com a atriz favorita, é vedada às autoridades, ou a quem nada faz. Que pode correr até o Centro da Cidade às 11 e ficar estático numa fila absorto em gritar quando os ingressos acabam. Descobrimos que nem pagando conseguimos ver a atriz favorita. E descobrimos que a vida é assim, cheia de coisas que não custam dinheiro, mas mais cheia ainda de coisas que custam.
E as árvores parecem saber disso.
E para todas as faltas de inspiração sempre existe o vinho.
A Vida Circular II
Novembro 3, 2008
O meu bairro me leva pela mão em minhas andanças. A vontade de me fazer estrangeira novamente me faz lembrar que cidades são uma só. Me faz querer acreditar nisso. Mas não. A cidade é tão pessoal e instransferível. Que sonho com mercados com tipos exóticos de curry, sonho com ruas onde homens e mulheres se vendem, em depósitos de navios atracados a esmo, em torres que nunca vi de baixo, só no ângulo logitudinal da mesma altura. Aquele ângulo irreal usado em tantas fotos de cartões postais. E preciso sair da cidade. E me perder nestes círculos. O máximo que faço, cansada e cheia da opressão de respirar o mesmo ar, é beber. Tomo grandes goles onde deveria me embriagar com as palavras. Onde deveria estudar, no meu quarto, carrego líquidos e torpores à cabeceira. Depois de ver os e-mails e falar com amigos à distância, e entre suas companhias tenho mais o olhar da cerveja a me embevecer. Vou dormir e temos festas para ir. Com as mesmas pessoas. E com essa tristeza imensa de reencontrar amigos que nunca de fato foram amigos. Que nunca se permitiram ouvir nada menos que elogios. E pessoas que não passam do “oi. Tudo bem”. E alguns galanteios de ocasião. É belo o museu que antes havia sido uma estação ferroviária. E agora ao invés de minério, ou pessoas, traz o tempo como passageiro. A tentativa de ser marcado e deixar suas marcas no tempo, que é a arte.
A Vida Circular
Outubro 30, 2008
Caminho pelo bairro por onde meus pés me levam. Rua da Lama. Supermercado Gigante Cor de Salmão. Salmão mesmo. Que me recuso a usar a palavra salmon. No cú a palavra salmon. Então a vida é circular. Não no sentido de que a vida é andar por aí, a vida é circular. Como as praças do meu bairro. Isso pode ter me dado por algum tempo a ilusão de que continuar com o Cara Grosseiro era a coisa mais natural a fazer. Era tudo um círculo e aparentemente círculos são próximos de voltar. De parar no mesmo lugar em que se começou. Não. A vida não pode ter essa singularidade trivial. Esse desleixo dos acontecimentos. Esse bombear devagar do sangue que nem é quente. É morninho. Vamos lembrar de coisas mornas. Uma mamadeira de bebê. Um vômito. O acento do vaso sanitário quando houve alguém sentado por horas nele antes de você. A vida tem que ter frenesi. Tem de haver fissuras na vida, mas que elas respeitem os limites do auto-respeito. E uma vida inteira num dia é minha forma preferida de viver. Bebo o quanto eu quero agora. Fumo o quanto preciso e ainda páro de fumar exatamente no momento que gostaria de. Sem ninguém roubando meu oxigênio fumando no quarto enquanto durmo. E ainda tem a sensação de andar pelas ruas sem ninguém vigiando para onde olho. E sem ninguém censurando se eu olho demais para aquela franja do rapaz no escuro do meu bar preferido. DO MEU BAR FAVORITO. Onde ninguém tem nada com a minha vida. Onde eu pago as minhas contas. Onde os garçons sabem meu nome. Onde a música é mágica e é realmente um templo. E se o dono é ligeiramente mal humorado, o que importa? Melhor ainda, porque assim afasta todas as pessoas viciadas em gente treinada. Como odeio animais no circo, também acho estranho atendimento com falsos sorrisos. E para quem namorou um fã absoluto dos Beatles, eu tenho um segredo: prefiro The Velvet Underground & Nico. E prefiro o punk. E o jazz. E até gosto da Amy. E sou uma velha adolescente, porque plagiando Liz Taylor, eu faço desanirvesários a cada ano. E nem me importo com meus roncos e com a o que outra pessoa vai comer. Porque sou fã de pessoas independentes. E de cuidados divididos, não centrados em um só. E detesto descontroles e crises histéricas. Sim, homens podem ser histéricos, Freud mesmo se assumia como um. Mas o controle sobre minhas emoções reside exatamente no descontrole e eu não acredito que você ainda não tenha aprendido sobre isso. É só falar o que pensa quando pensar. E assumir-se. Quem não fala o que pensa acaba gritando o que pensou meses antes. E sobre o fato de você, Cara, ter segurado meu braço e me jogado aquele copo de cerveja no rosto, não se preocupe. Já existe uma queixa e se ousar se aproximar novamente de mim você vai preso. Medida cautelar. Exigir a distância é tudo que eu quero agora, poderia querer que você se torne mais feliz e mais manso. Que encontre uma ocupação que pague suas contas, seus vinis e seus sonhos de viagens e casacos. Mas de verdade eu quero que você encontre alguém, para que eu não habite nem mais em seus pensamentos, para que me exclua de toda e qualquer menção. Não vou me estender sobre o que eu mereço ou não, mas juro que se você se aproximar te meto na cadeia. E por muito mais de uma noite.
(trecho de meu novo livro, em construção, junto com o antigo, e totalmente ficcional)
Barbieri
Outubro 29, 2008
Deus teve pena do meu desejo. Deus teve pena de mim com um pires sentimental na mão. Com a inglória deste brilho obsceno no olhar. Meu desejo é esse cego bailarino que insiste em não andar nas pontas dos pés. Meu desejo extraviado. Meu desejo é uma carta com um só remetente, e esse nunca está em casa. E meu desejo retorna a mim. Com selos do descaso e carimbo de devolvido.
Eu sou a trilha do Último Tango em Paris. Meu coração é aquele apartamento abandonado que exige somente um morador. Meu desejo não quer fiador contra infortúnios. Porque meu desejo não faz sentido. Coisas cortantes e estilhaçadas e recolhidas no chão. Como as pequenas flores da ikebana que você não me deu. Meu desejo sai de casa sobre meus pés e me leva junto. Para te ver tocar e ensaiar sua arritmia proposital nas mãos. Meu desejo é uma bateria. Uma qualquer em qualquer música descompassada de jazz improvisado. Meu desejo é novo em folha. E entorna-se perante seus olhos. E meu desejo é singularmente ridículo. Com as coisas ainda desprovidas de amor.