Uma dor no outdoor
julho 23, 2010
Eu imagino o que pode ser perder um filho. Lembro de uma mulher num programa de TV, falando que para o filho que perde pais, há a palavra orfão. Para pais que perdem filhos, não há palavra em português. Talvez em nenhum outro idioma. Mas penso que eu conseguiria. Tomaria todos os remédios do mundo. Algumas vezes eles seriam apenas um: uísque. Ficaria sem comer. Me filiaria a uma religião ou duas. Me reconciliaria com aquela amiga que nunca mais eu havia perdoado. Comeria só bolo de cenoura com chocolate. Mas eu colocaria óculos enormes, e saíria de casa um dia. Com medo da luz e das pessoas conhecidas. Andaria por ruas onde nunca estive, pensando que as pessoas, com quem eu cruzaria, não me olhariam como a mãe de um filho morto. Mas como uma desconhecida, meio abatida e com olhar de louca, mas apenas desconhecida. Mas e quem perde o filho e tem de ser vista? Não apenas por pessoas conhecidas. Mas confrontada com opiniões de estranhos, sobre como ela cria seus próprios filhos. Inclusive o que morreu. Exposta na rua, nas vitrines da internet. Em todos os sites, revistas, jornais, noticiários da TV. Eu acho que as pessoas deveriam calar a boca. E parar de fazer algumas notícias. Deveria existir uma lei trabalhista que obrigasse, em casos extremos, o jornalista alegar quebra absoluta de princípios, e assim, poderia simplesmente não tirar a foto, não escrever a matéria. Não obedecer à pauta. E os patrões não poderiam demití-lo por isso. Se demitissem, teriam que pagar multas altíssimas, tipo o lucro de uma tiragem que traz uma notícia sensacionalista grosseira, com fotos de pessoas em velórios.
novembro 16, 2010 at 8:14 pm
não há ao menos o respeito para aquele um minuto de silêncio…
bom, muito bom “folhear” este livro, estou adorando o jeito que coloca bem o nosso cotidiano.