Diagramado na Chuva
junho 20, 2010
Exatamente 22 horas de uma noite dessas. As roupas laranja, e as luvas, que mal protegiam de todos os restos deixados pelos mais de quatrocentos moradores do cabeça de porco, na praia de Botafogo. Os três no movimento de encaixar o latão de dejetos e virar na caçamba. Misturados com os primeiros respingos da chuva que viria. E o silêncio cortado pelo barulho do caminhão de lixo estilhaça as horas. Um sonho criado pelo cansaço: chegar em casa e tomar banho. Maria havia lhe dado um perfume comprado no Saara, coisa fina mesmo. Esperava que nesse dia, como sempre, ela estivesse lá, a janta pronta. Só esquentar para ganhar dela outras coisas: limparia suas unhas, esfregaria as costas, perguntaria se foi tudo bem. Maria. Nova com o aumento de salário, que já era quase igual ao dele. Poderiam ficar até mais tarde, debaixo do cobertor. Cervejas e quem sabe não passaria um filme bom.
Sentindo acima de si o edifício imenso, janelas para um mundo de cores apenas das tevês. O último número do itinerário daquela noite. Dessas sem lua. Antonio ajeitou o último saco, com dificuldade. Uns cinqüenta quilos. Acochambrou e o conteúdo se dobrou mole. Tocou de leve na matéria do lixo e teve certeza. Os outros dois já o olhavam de susto estampado nas caras. Colocou no chão e rasgou o plástico preto. Ela tinha a pele estranhamente violeta genciana. Um fedor antigo, mas há muito eles não tinham olfato para essas delicadezas. Cabelos compridos e loiros. Era uma mulher pequena. Nem uma perfuração seca na altura do peito. Nada. Apenas veias do braço ressecavam visivelmente ao toque inchado de Antonio. Praticamente bonita. Por causa da dona, horas na delegacia. E depois passaria o resto da vida com medo de sacos pesados. A boca dela tinha um oscilar quase sorriso, rígida e sem roupa. Marca de biquíni, um piercing, num dos pés ainda uma bota de cano curto. Azul. Depois daquela noite, em muitas delas, ela o esperaria nos sonhos. E elogiava, não o seu perfume, como Maria, mas sim seu cheiro. Todo.
junho 20, 2010 at 1:17 pm
Nunca mais vou ler um texto seu tomando café da manha…
junho 20, 2010 at 3:27 pm
… olfato para delicadezas… e que delicadeza!
junho 20, 2010 at 11:56 pm
Posso publicar este lá no blog? Adorei!!!
junho 21, 2010 at 12:06 am
Claro querido! À vontade!
junho 22, 2010 at 1:03 pm
Poxa, e eu cobiçando uma bota de cano curto azul!
junho 27, 2010 at 2:37 am
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