A vida circular tenta dobrar a esquina e sumir
Janeiro 22, 2009
Matarte-ei.
Com estilingue no áspero da lingua.
Com mero descaso de mim.
Esperei. A construção de margaridas. De hortências.
Parei desembocada em seu nada.
E em sua covardia.
Não seria o primeiro nem o único que perdi para o metal que assombra e faz girar a roda putaria das vidas e dos bancos e encher as lojas de bugigangas.
Isso serve de consolo e de conforto. De arreio e de voo.
A espera traduzida na mais bela das faltas de expectativas.
Pôr do sol dentro de mim.
Noite em claro em cigarros de menta sem cervejas e sem alentos.
Minha saúde transbordando à volta de um que nunca vi.
A incredulidade de que esquecerei.
A vida circular também desiste de ser circular e de ser vista.
Irrompe desastrosamente na reta e ouve assustada o barulho do caminhão do lixo.
E pernoitamos na falta de tempo que refaz as imaginações, mais assombrosas ainda, se pensarmos como Lacan e adivinharmos que o real configura-se e insere-se no imaginário e, pior, vice e versa.
Escrevo poemas como quem gorjeia.
Como quem mareia.
A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância.
Vigiando os presentes da árvore de natal.
Esperando o próximo.
O outro.
O grito louco do doido de rua que me passou em frente e desejou casamento.
Os amigos todos são contra.
Os comentários se fazem ouvir.
Não adianta estancar um rio, amigo Daniel.
Nem a ilusão é cabível nas telas de cinema. Ela sai de lá percorre e atravessa a vida das pessoas em falta delas mesmas.
Sobrou essa morbidez dos braços que não prescrustam nada além de um possível olhar a esmo.
Sobrou este gosto na boca inteira inútil.
As pernas doidas traçam caminhadas num sol que me queima por fora, tentando alcançar o cimo e o dentro de mim.
Sobrou a palavra não dita.
Restou o jogo de palavras envoltas em músicas de caixinhas de bailarinas bêbadas e de batons vermelhos.
Tudo por vir.
Tudo já ido?
Se eu ao menos soubesse, divinatória de suas cartas escritas com tintas invisíveis. De seus poréns e de seu mau humor matinal,
próximo de meu bom humor café.
Exploramos as vísceras e delas tiramos os suspiros.
Contrafeitos aprendemos que nunca seremos.
Aprendemos?
Apenas diga a ele que menti que não queria.
Que exagerei quando sim.
Que chorei nas areias da praia da minha juventude, vendo a fábrica laranja insinuar seu ventre de minério e de infertilidade.
É longo o poema da ausência.
É tanto preenchimento para os buracos que as palavras não ditas permeiam.
Merece um porre a mais.
Merecemos mais, mesmo, outra coisa que pode ser tomada:
quente:
coragem.
Cor.
Janeiro 23, 2009 at 7:31 pm
Cor é importante.
Janeiro 23, 2009 at 11:49 pm
Coragem , coração que age.
De cor , pas décor.
Exploramos as visceras e dela tiramos os suspiros
A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância
Mara , isso aih eh mais que literatura.
Você assistiu Eu, você e todos nós da Miranda July ? tem uma cena dela andando lado a lado com sapatero que me parece a vida circular tentado dobrar a esquina e sumir.
Bjs
Duda
Fevereiro 28, 2009 at 2:59 am
Muito bom!
Mas não exatamente por causa desse texto; lembro de um outro texto seu chamado “frágil”, publicado faz tempo no Caderno Branco ou no Paralelos, que eu acompanhava com relativa freqüência. Gostei muito, e fiquei bastante impressionado com a reação das pessoas nos comentários – desde os mais rasgados elogios até a mais absoluta repulsa, alguns bem agressivos até…
Frágil ainda está online em algum lugar?
Peço desculpas de antemão por já chegar pedindo!
Valeu!
Março 1, 2009 at 3:33 pm
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