Matarte-ei.

Com estilingue no áspero da lingua.

Com mero descaso de mim.

Esperei. A construção de margaridas. De hortências.

Parei desembocada em seu nada.

E em sua covardia.

Não seria o primeiro nem o único que perdi para o metal que assombra e faz girar a roda putaria das vidas e dos bancos e encher as lojas de bugigangas.

Isso serve de consolo e de conforto. De arreio e de voo.

A espera traduzida na mais bela das faltas de expectativas.

Pôr do sol dentro de mim.

Noite em claro em cigarros de menta sem cervejas e sem alentos.

Minha saúde transbordando à volta de um que nunca vi.

A incredulidade de que esquecerei.

A vida circular também desiste de ser circular e de ser vista.

Irrompe desastrosamente na reta e ouve assustada o barulho do caminhão do lixo.

E pernoitamos na falta de tempo que refaz as imaginações, mais assombrosas ainda, se pensarmos como Lacan e adivinharmos que o real configura-se e insere-se no imaginário e, pior, vice e versa.

Escrevo poemas como quem gorjeia.

Como quem mareia.

A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância.

Vigiando os presentes da árvore de natal.

Esperando o próximo.

O outro.

O grito louco do doido de rua que me passou em frente e desejou casamento.

Os amigos todos são contra.

Os comentários se fazem ouvir.

Não adianta estancar um rio, amigo Daniel.

Nem a ilusão é cabível nas telas de cinema. Ela sai de lá percorre e atravessa a vida das pessoas em falta delas mesmas.

Sobrou essa morbidez dos braços que não prescrustam nada além de um possível olhar a esmo.

Sobrou este gosto na boca inteira inútil.

As pernas doidas traçam caminhadas num sol que me queima por fora, tentando alcançar o cimo e o dentro de mim.

Sobrou a palavra não dita.

Restou o jogo de palavras envoltas em músicas de caixinhas de bailarinas bêbadas e de batons vermelhos.

Tudo por vir.

Tudo já ido?

Se eu ao menos soubesse, divinatória de suas cartas escritas com tintas invisíveis. De seus poréns e de seu mau humor matinal,

próximo de meu bom humor café.

Exploramos as vísceras e delas tiramos os suspiros.

Contrafeitos aprendemos que nunca seremos.

Aprendemos?

Apenas diga a ele que menti que não queria.

Que exagerei quando sim.

Que chorei nas areias da praia da minha juventude, vendo a fábrica laranja insinuar seu ventre de minério e de infertilidade.

É longo o poema da ausência.

É tanto preenchimento para os buracos que as palavras não ditas permeiam.

Merece um porre a mais.

Merecemos mais, mesmo, outra coisa que pode ser tomada:

quente:

coragem.

Cor.

4 Responses to “A vida circular tenta dobrar a esquina e sumir”

  1. duda Says:

    Coragem , coração que age.
    De cor , pas décor.

    Exploramos as visceras e dela tiramos os suspiros

    A paixão é um cão que não dorme vigiando os portões de ferro da casa da infância

    Mara , isso aih eh mais que literatura.

    Você assistiu Eu, você e todos nós da Miranda July ? tem uma cena dela andando lado a lado com sapatero que me parece a vida circular tentado dobrar a esquina e sumir.

    Bjs
    Duda

  2. LC Says:

    Muito bom!
    Mas não exatamente por causa desse texto; lembro de um outro texto seu chamado “frágil”, publicado faz tempo no Caderno Branco ou no Paralelos, que eu acompanhava com relativa freqüência. Gostei muito, e fiquei bastante impressionado com a reação das pessoas nos comentários – desde os mais rasgados elogios até a mais absoluta repulsa, alguns bem agressivos até…
    Frágil ainda está online em algum lugar?
    Peço desculpas de antemão por já chegar pedindo!
    Valeu!

  3. Mike Says:

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