A vida circular de volta
Janeiro 11, 2009
Os círculos sempre voltam. Eles são o princípio, o fim e o meio. São o óvulo e a Terra. São as redondilhas das pontas dos dedos. São a intensa solidão de encontrar a si mesmo. São os ovos, os nódulos circulares das suas mãos em minhas coxas. São as pontas de seus olhares, redondos e gulosos.
A vida circular quer muito arrumar as malas e partir. Para algum lugar onde a vida seja menos circular. A vida circular esquece de amores, e o próprio coração tem batidas regulares que fazem circular o sangue.
E o sangue se perde inútil, porque há de ser morno e calado.
Os dedos não podem telefonar. As mensagens não devem ser escritas. O sangue estanque e eu exangue.
A vida circular precisa de motivos para existir. Como todos os seres e até os objetos inventados. Escovas de dentes, caixas de fósforos, quadros na parede, bailarinas de caixinhas de música, átomos, maços de cigarro, pílulas de dormir.
Talvez somente a fé, a arte e a literatura prescindam de razões para existir. A vida circular não é tão forte assim. Olhem. Ela pede atenção.
Ela pede telefonemas e reza esperando. E esperar torna tudo ferruginoso. Torna engrenagens pardacentas. Do lado de dentro a espera é adoçada e comprimida com ansiolíticos. Clonazepam.
A crueldade pode se travestir em conselhos e em doçuras.
Mas enlouqueço com delicadezas, mesmo que sejam gritadas.
E eu que deveria chorar pela Faixa de Gaza. Choro por mim.
Tão egoísta e pequena que me assusto.
O que é incrível, porque um sintoma inédito nesta vida circular é o susto.
Janeiro 15, 2009 at 8:18 pm
Querida Mara,
Conselhos e doçuras jamais se transformam em crueldade. Parece que sua autopiedade, ou orgulho, ou necessidade de parecer forte a impedem de aceitar as ajudas que são colocadas em seu caminho.
Não a conheço, mas seu texto me faz sentir uma vontade enorme de pegá-la no colo, como uma mãe faria, e dizer que nenhuma dor é tão grande assim.
Se precisa ir, levante e vá. Se deseja cortar o círculo, o faça e inicie outro, mesmo que desenhado numa folha de papel.
A humanidade inteira morre das mesmas coisas: autopiedade, orgulho e uma necessidade imensa de carinho e atenção.
O susto é sua porta de saída. Escolha entre o líquido vermelho e o azul e entre nela.
Com carinho,
Homoludens
Janeiro 17, 2009 at 3:08 pm
Acho que Homoludens entendeu tudo errado.
Mas todos têm direito a entender o que quiserem de qualquer texto.
Só que eu pretendo fazer literatura, e não falo de mim confessionalmente aqui, acho que essa é a base da confusão dele. Acha que eu reclamo da minha vida ou coisa assim…Enquanto eu crio personagens e falo sobre a cidade.
Mesmo assim, obrigada pelo comentário.
Julho 27, 2009 at 7:19 am
Mara Coradello,
Excesso de elegância e polidez é ingenuidade, ou pior, defeito!
Assim, confesso-me profundamente decepcionado, enciumado até, ao ver que Homoludens, este forte candidato a nome fantasia de barbitúrico, mereceu de você uma resposta ao comentário CORSÁRIO que fez, e não a deleção sumária. Do que me vejo constrangido a registrar aqui também o meu, exigindo reciprocidade de tratamento de sua parte, ou ao menos um danoninho.
Sem sair do tema cromático: seus personagens são coloridos como você, preto-e-branco como você, e portanto são você, ao sabor de suas inúmeras tonalidades íntimas; pois você é o lugar onde o processo literário se deu.
Daí é óbvio concluir que reduzir o processo a sua essência, que foi o que o(a) cretino(a) fez, é o mesmo que procurar a obra de Shakespeare numa bula de remédio (quem sabe até um barbitúrico: vermelho, azul, ou, no caso de Homoludens, marrom). E também uma calamidade intelectual!
Nesta toada, não tardará chegaremos ao dia em que qualquer leitor suficientemente analfabeto, ou mal intencionado, alegará ter absorvido uma obra literária a partir dos cacos da alma do escritor que percebeu (ou supõe ter percebido) pelo caminho. Como se o processo literário não caminhasse justamente no sentido oposto.
Do que eu rogo você prossiga reclamando da vida o quanto quiser, e confessando o que bem entender, pois tudo será devidamente filtrado no ato quase carnal da leitura.
E, findo o processo, restará a obra.
Atenciosamente,
Eduardo Fernandes
(transeunte, cronista amador, ex-qualquer coisa de uma amiga sua que gostaria de me acertar com um tiro de bazuca)
Janeiro 18, 2009 at 12:15 am
Mara. Não sei muito se você gosta de memes. Se não gosta, ignore, mas te deixei um lá no meu blog.
=**