A Vida Circular e Inédita
Novembro 13, 2008
Viu o homem de terno branco e barba rala, cinzenta.
Ela tinha certeza que o conhecia. Relampejou ao redor do homem.
Ela entrou no carro dele e foi como a primeira vez. E ele falava a voz de um grave. Que ela imaginou que tinham aprisionado um trovão no peito dele, que ele delicadamente emitia pedaços de trovejar.
E ele tinha cílios longos, ao contrário da barba, e eram negros e retintos cílios, e ela viu os cílios como formas dele afagar o que olhava.
O homem tem cílios para afagar o que olha.
Os olhos úmidos pela chuva e pela constância em acreditar. Do caminho bifurcado a certeza da escolha da magia. A bruxaria nas palavras escritas em primeira pessoa inaudita.
Estou certa agora do mergulho, na loucura, naquela brecha de luz que inicia o encontro com o Aleph, nos primeiros delicados dedilhar de piano que antecede uma Gimenopédia de Satie, no anterior aos dentes cortarem com gozo a carne da maçã espumante e importada, no frio dos pés que anuncia o banho no mar do primeiro caldo da infância, no medo do toque da estante em escuro ao sentir o inseto que correu, no primeiro parágrafo de Harmada do Noll, na primeira lida em Clarice escondida das amigas na biblioteca da escola, na hermética sensação de enjoar que causou o primeiro cigarro, naquele vômito surpresa do porre ao onze anos tomando os copos que sobravam da festa dos adultos.
Eu sinto-me bem na minha pele. E sou toda pele agora. Decidi qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_ao descobrir todas essas coisas, três coisas caleidoscópios onde cabem, com folga, todas as outras coisas. Ao descobrir qual será meu segredo, minha abnegação e minha vontade_vislumbrei a mim mesma. E o entorno ficou cinza puído e eu acabo de me tornar da cor daquele pó das asas das borboletas. E dizem que se esfregamos aquele pó no olhos, cegamos.
Eu cego.
Novembro 26, 2008 at 12:27 am
“Eu cego.” Simples e impecável.
Gostei de como escreve, Mara. Achei seu blog por acaso, mas não por acaso passarei sempre por aqui. Ganhou um leitor.
Beijo